Sabrina Noivas 56 - The Mirror Bride
  
Marriage Maker 01

Pode um retrato do passado trazer amor para o presente? Olvia Nicholls sabia que, ao se casar com Drake Arundell, estaria assegurando o futuro do irmo... e se condenando  infelicidade! Ainda que Olvia ansiasse por um casamento de verdade com Drake, muitos segredos, muitas mentiras se interpunham entre eles. Somente um anjo poderia salvar aquela relao!

Digitalizao e correo: Nina


Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publio original: 1996. 
Gnero: Romance contemporneo
Estado da Obra: Corrigida

Marriage Maker
1. The Mirror Bride (1996)
2. Meant To Marry (1996)
3. The Final Proposal (1996)

   



Srie The Marriage Maker
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	The Mirror Bride
Sabrina Noites 56 -
 A Noiva Do Espelho	Feb-1997

2	Meant to Marry
Sabrina Noivas 58 -
 Retrato Encantado	Mar-1997

3	The Final Proposal
	Apr-1997









CAPITULO I

EIa era muito jovem. Olvia no a conhecia, mas aquele rosto bonito lhe era muito familiar. Algo, ela pensou meio confusa, talvez o queixo quadrado e a boca determinada, uma boca que agora nada mais era do que uma linha fina, fazia Olvia sentir que estava diante de algum que conhecia h muito tempo.
	Escreva para ele  a desconhecida aconselhou, e as fitas e as plumas do chapu que usava se moveram por causa do movimento rpido que fez com a cabea. Aqueles olhos azuis, mais que nunca, prendiam a ateno de Olvia.   a nica coisa que pode fazer. Voc precisa escrever.
	No, eu no posso!
O som de sua prpria voz fez com que Olvia acordasse.
Meio desentendida, ergueu a cabea e olhou para a sala simples onde dormia, como se fosse encontrar a desconhecida ali dentro, vestida de seda, babados e fitas, sada da metade do sculo dezoito. No, definitivamente a sala onde se encontrava, com piso de vinil, um armrio e uma pequena pia, pertencia ao sculo vinte.
Enquanto se sentava  mesa de frmica muito usada, Olvia pensou no sonho que h noites no a deixava dormir. Era um sonho real, vvido. Mas, ela sabia, no deixava de ser uma manifestao do seu inconsciente que a estava obrigando a encarar a dura realidade.
Bocejando, tirou do rosto uma mecha dos seus loiros cabelos e olhou o papel que estava sobre a mesa. No papel, havia feito inmeros rabiscos, figuras sem o menor sentido, tudo na esperana de poder adiar o inadivel.
Mas a realidade se impunha. A realidade era muito mais forte, mais cruel do que qualquer sonho. E mais desespe-radora do que o prprio desespero.
Olvia pegou a caneta e um outro papel que havia deixado sobre a mesa e comeou a escrever. Porm, depois de ter escrito apenas dois pargrafos, ela se deteve e murmurou:
	No, isso no!  muita estupidez da minha parte.  E ficou olhando para o envelope j selado que tambm se encontrava sobre a mesa. De repente, sua ateno foi desviada para o selo, onde um bfalo, muito bem desenhado, nas cores preta e ouro, parecia fit-la.
Olvia deu um profundo suspiro e leu o que estava escrito na parte inferior do selo: Nova Zelndia. Logo ao lado, tambm na parte inferior, um nmero e uma letra: 45c.
	Quarenta e cinco centavos! Isso para mim, hoje,  muito dinheiro. S me resta mesmo economizar.
Ela voltou a escrever e, de novo, achou que no conseguia prosseguir. Aquilo que conseguira passar para o papel no estava bom. E, por inmeras vezes, a reao de Olvia foi a mesma. Tinha que conseguir ser mais objetiva!
Com a parte superior da esferogrfica na boca, olhando para a rua movimentada, por causa das lojas de comrcio, e para os prdios muito semelhantes ao que morava, mais de uma hora ela continuou tentando escrever. Mas a inspirao no vinha. E ali, com tanta desolao, na certa a inspirao nunca viria.
"Nem aqui e nem em outro lugar qualquer... Acho que jamais vou conseguir escrever o que quero", ela concluiu em pensamento.
Mais alguns minutos se passaram. De repente, decidida, Olvia pegou uma folha de papel limpa e escreveu:
Querido Drake,
Preciso v-lo. Existe algo que tenho urgncia em lhe dizer.
Olvia Nicholls
Por uma infinidade de vezes, leu e releu o que havia escrito. E no se deu por satisfeita.
	Esse bilhete no deixa muito claro o porqu temos de nos encontrar. E parece meio ameaador.  Ela deu um longo suspiro.  Mas eu no posso fazer nada, no posso ser mais explcita. Algum pode pegar esse bilhete: a esposa dele, por exemplo.
Com medo de voltar atrs e passar mais alguns dias decidindo o que ia escrever, Olvia dobrou a folha de papel, colocou-a dentro do envelope e o fechou.
Decidida, ela se levantou, trocou de roupa e saiu, rumo a uma caixa dos correios, que ficava prxima de onde morava.
"Quinze dias. Drake tem quinze dias para me dar uma resposta. Se a resposta no chegar, vou ter que tomar um outro rumo na vida."
Auckland, no final do outono, era muito depressiva. E final de outono significava a proximidade do incio de inverno. E inverno significava medo, humilhao e impotncia. Inverno significava tambm ter que lidar com a tosse de Simon, significava o pesadelo de ter que arejar e secar roupas, significava verduras e vegetais caros e a dor de ver Simon indo para a escola com roupas inadequadas.
H trs anos, Olvia e Simon moravam em Auckland, e esse terceiro inverno que se aproximava, parecia que seria bem pior que os anteriores. Para piorar a situao, h cinco dias tinha perdido o emprego. O dinheiro que recebera no fora muito e era tudo o que agora possua para viver. Economizar mais do que j estava economizando era impossvel. E, com o dinheiro que havia recebido, ela ainda precisava pagar a dvida que contrara com o vizinho que morava no apartamento ao lado do seu.
Para contornar tantos problemas, tantas vicissitudes, sabia que precisava manter o controle, precisava manter a calma. Mas estava muito difcil.
Olvia parou ao lado da caixa dos correios e olhou para o endereo do envelope.
"Voc no tem que mandar essa carta", uma vozinha interna lhe disse. "Tente lutar mais um pouco. Ningum morre de fome na Nova Zelndia."
Do endereo, o olhar de Olvia se fixou nas suas mos. Antes elas eram macias, as unhas sempre bem feitas; hoje, elas tinham a pele spera, as unhas cortadas rentes e, na mo direita, os calos provocados pelo uso constante das tesouras.
"Se minha me visse esses calos, com toda certeza desmaiaria."
Elizabeth Harley acreditava que a mulher havia nascido para ser elegante e muito bem casada.
"Mas a minha me era filha nica, de um homem muito rico, e eu no tenho dinheiro algum."
Ainda com a carta nas mos, Olvia hesitava. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. O que estava fazendo era muito perigoso. Mesmo assim, no via outra alternativa.
Num gesto de desafio, ergueu a cabea e colocou a carta na caixa.
Pronto! Estava feito! Agora era esperar. Esperar para ver o que iria acontecer.
"E no posso mais pensar nesse assunto. Mesmo se eu quisesse, no poderia voltar atrs. Agora vou pegar o Simon na escola."
Decidida, Olvia tomou a direo da escola. Ao chegar diante do estabelecimento de ensino, foi impossvel no se emocionar. Atrs de uma grade de ferro, com as roupas bem apertadas, Simon, agora com seis anos, a fitava com os olhos brilhantes.
"Pobrezinho. Fiz essas roupas no incio do vero e elas j esto bem justas. Ele est crescendo muito. Mas, se tudo der certo, Simon no vai precisar continuar usando essas roupas e poderei comprar para ele as botas de que tanto est precisando."
Olvia, sentindo uma dor profunda no estmago, se aproximou do porto.
	Oi, Olvia  o garoto disse, abrindo o porto da escola e saindo.
	Oi, Simon. Como foi o seu dia hoje?  Olvia e o garoto haviam tomado o rumo de casa.
	A sra. Adams mandou um recado para voc.
	 mesmo?  ela perguntou com um certo receio.
	No se preocupe, no fiz nenhuma malcriao.  Simon chutou uma pedra.  E apenas um aviso sobre um passeio que a minha classe vai fazer na praia. Eu disse a ela que no poderia ir. Mesmo assim, a sra. Adams me deu o papel com o recado.
Olvia e Simon detestavam aquele tipo de recado. No caso dela, porque raramente podia gastar com aquele tipo de viagem. No caso do garoto, porque a ausncia dele era sempre notada e o fazia se tornar diferente dos coleguinhas. Mesmo naquela rea pobre da cidade, todos pareciam ter muito mais recursos do que eles.
At que Olvia precisasse comear a economizar para a operao que o garoto tinha que fazer no ouvido, ela sempre dera um jeito de mand-lo passear com a classe. Depois, a situao havia mudado. E ficava muito difcil explicar a um garoto, com um pouco mais de seis anos, que precisavam economizar e, por causa disso, ele no podia acompanhar os colegas. Mais difcil ainda era faz-lo entender que, se a operao no fosse feita, fatalmente ele ficaria surdo.
	Esquea esse papel.
Os dois caminharam um quarteiro sem dizer nada. De repente, Simon quis saber:
	Olvia, por que ns falamos diferente?
	No entendi, Simon.
	A gente fala de um jeito diferente.
	Diferente? Como assim?
	Diferente.  Simon olhou para a calada e continuou:
 Hoje eu briguei com Sean Singleton por causa disso. Ele disse que eu falo de um jeito diferente. Ns somos ingleses?
	No, ns no somos ingleses. E voc fala da maneira que eu falo.  Na realidade, Olvia no sabia direito o que dizer ao garoto. Apesar de se dizer que na Nova Zelndia no existiam classes sociais, aquilo no era verdade. Para constatar tal fato, bastava ficar sem dinheiro. A, a pessoa era automaticamente colocada em seu devido lugar; ou seja: longe das pessoas ditas de bem. E se, para piorar a situao, a pessoa ainda fosse do sexo feminino, tivesse que criar uma criana e no tivesse um marido, a situao se mostrava pior ainda: o desprezo, principalmente da classe-mdia, era fatal.
	O Sean falou que eu sou um idiota  Simon disse, sem olhar para Olvia.
	Voc sabe que isso no  verdade, no sabe? Assim que voc operar o ouvido vai mostrar a Sean Singleton o quanto voc  esperto e inteligente. At que isso acontea, querido, tente no brigar mais.
Ao olhar para o garoto, Olvia percebeu que algo mais tinha acontecido na escola.
	Tem mais alguma coisa para me dizer?  ela perguntou, com o corao apertado. As crianas, quando que
riam, sabiam ser bastante cruis. Quando comeara a frequentar a escola, Simon havia se sentido muito feliz, mas em pouco tempo j no suportava mais as piadinhas dos colegas, e muitas vezes j tinha se negado a sair de casa. A sra. Adams fazia tudo que estava ao seu alcance. Mas, para uma escola praticamente sem recursos, tudo significava quase nada.
	Simon, perguntei se tem mais alguma coisa para me dizer.
	No, eu no tenho  o garoto respondeu baixinho.  E no me importo com o Sean. Sempre que quiser, posso dar uma boa surra nele. Voc no vai ler o recado que a sra. Adams mandou?  O garoto tirou o papel do bolso e o estendeu  Olvia.
"Agora os alunos vo viajar para Lieg, onde dormiro uma noite. E eu nem posso pensar em pagar uma viagem dessa!". Depois de ter lido o bilhete, Olvia o dobrou e o colocou no bolso.
	Eu sabia que ia ser muito caro para a gente  Simon disse, no muito conformado.   melhor a gente se apressar para dobrar os papis.
Todas as semanas, Olvia e Simon distribuam papis de propaganda pela cidade. O dinheiro que recebiam com a atividade, servia para comprarem algumas coisas extras, como guloseimas para o garoto. Mas agora, aquele dinheiro iria servir para comprar coisas absolutamente necessrias.
"No  justo que Simon ainda to novo fique comigo distribuindo esses papis para ganhar um dinheirinho extra. No  justo que use roupas apertadas, no possa ser operado, no more numa casa decente. No  justo que se veja obrigado a passar tanta necessidade! Ele precisa de brinquedos, de livros, de boa comida. Essa criana precisa de muita, muita coisa! E, para lhe dar tudo o que precisa, resolvi colocar o meu orgulho de lado. E espero ter feito a coisa certa."
J em casa, Olvia colocou uma chaleira no fogo e preparou um ch. O leite que tinha na geladeira estava reservado para o garoto.
	Olvia, eu quero preparar o meu sanduche  Simon disse.
	Tudo bem, pode preparar.
	Posso, mesmo?
	Claro que sim.
Simon pegou duas fatias de po e o creme de amendoim na geladeira. Em seguida, fez o sanduche e o comeu com avidez.
	Vou preparar o leite para voc.
 Eu no quero leite.
	Mas vai ter que tomar, querido.
	Eu prefiro um pouco de ch.
	No, voc toma o leite primeiro. Depois, se quiser, pode tomar o ch.
	Por que voc sempre quer que eu tome leite?
	Porque voc est crescendo e precisa de protenas.
Depois de ter entregue o copo de leite ao garoto, Olvia
abriu sobre a mesa um jornal de seis semanas atrs. Brett, o vizinho que morava ao lado, sempre lhe dava jornais, mas ela raramente os lia. Preferia ouvir as notcias pelo rdio.
"Sempre as mesmas notcias", ela pensava, enquanto teimava em no ir para a pgina central do jornal, pois sabia o que iria encontrar. Porm, Olvia no resistiu: com cuidado, para que Simon nada percebesse, foi para a pgina que j h trs dias fazia parte do seu cotidiano. E nela, reviu pela milsima vez a fotografia de Drake Arundell. Um homem que, apesar de conhecer h muitos e muitos anos, ainda no passava de um estranho.
Piscando rapidamente, ela forou seus olhos a se manterem abertos. Ento, se fixou naquele rosto srio, de expresso autoritria. Os sete anos passados desde que o vira pela ltima vez, haviam conferido maturidade s suas feies.
"Mas foi s nisso que Drake mudou. Os olhos verdes continuam os mesmos. E ele deve estar agora com... trinta e dois. Isso mesmo: trinta e dois anos; oito anos a mais do que eu. E com toda certeza est casado. Um homem como ele, to carismtico, no  ignorado pelas mulheres. Drake j deve ter filhos."
Simon, que havia feito um outro sanduche, se aproximou da mesa.
	Voc est com dor de cabea?  ele perguntou, de boca cheia.
	Simon, quantas vezes j lhe disse que  muito feio falar com a boca cheia?
O menino engoliu o que tinha na boca e insistiu:
	E a dor de cabea?
	Eu no estou com dor de cabea.
O garoto, ento, olhou para o jornal e perguntou:
	Quem  ele?   -
	Um homem que eu conheci. Ele tem hotis, barcos e  muito rico.
O artigo do jornal dizia que Drake Arundell tinha anunciado a inaugurao do Tero, um novo local para esquia-dores. O artigo continuava dizendo que, h trs anos, Drake havia voltado para a Nova Zelndia e comprado o ento falido e moribundo FunNZ, que no passado tinha sido um imprio. Com muita perspiccia, habilidade financeira e uma intuio imensa para investir em turismo, o empresrio alm de ter ressuscitado o imprio, o havia expandido. O artigo continuava tecendo elogios a Drake e dizia que ele tambm havia sido um excelente piloto de Frmula Um e s tinha deixado de pilotar por causa de um acidente grave que havia sofrido. Depois de cinco anos afastado de tudo por causa dos ferimentos, voltara com fora total, mas no mais para o automobilismo e, sim, para o mundo dos negcios.
Um vento inesperado, balanou a cortina e desviou a ateno de Olvia.
"Parece que vai chover", ela constatou em pensamento e voltou a olhar para o fotografia. A ltima vez que vira Drake, ele estava furioso.
Tudo tinha acontecido to rapidamente... Os dois haviam passado o vero juntos sem se tocarem, apenas trocando olhares fugidios. Isso at uma noite, depois de um churrasco oferecido pelos pais dela, quando Drake a havia beijado. Trs dias depois ele voltaria para o circuito da Frmula Um.
O beijo, que no incio tinha sido tmido, se tornou ardente, profundo. E Olvia, sequer por um momento, pensou em fugir daquela situao. Afinal havia passado todo o vero desejando beij-lo.
De repente, Drake a havia empurrado e dito:
	No oferea mais do que voc pode dar. Voc passou o vero inteiro me provocando de longe. No cometa o mesmo erro com outros homens. Tenho certeza de que eles no vo se controlar.
Olvia fechou os olhos. Apesar do tempo ter passado, as lembranas continuavam muito vivas dentro dela.
"No  justo. Drake est sendo mostrado como um exemplo a ser seguido pelos outros homens, enquanto Simon e eu temos de economizar centavo por centavo. No, isso no  justo!"
	Voc no quer ler um livro para mim?  Simon interrompeu-lhe o curso dos pensamentos.
	Vou lavar aquela loua que est na pia. Depois ns vamos dobrar os papis.
	E o livro?
	Quando for dormir, eu leio um pouco para voc. Ser que pode enxugar a loua para mim?
	Tudo bem, eu enxugo a loua.
Os dias foram se passando e Olvia tinha certeza de que Drake havia ignorado a carta que lhe envira. Mas, no fundo, ela guardava uma esperana de que algo iria acontecer.
Desesperada pela falta de perspectiva, Olvia tinha acordado muito chateada. Depois de passar a manh inteira procurando emprego, voltou para casa e comeou, quase com fria, a limpar o pequeno apartamento. Quando estava tudo limpo, ela olhou para o relgio.
	Daqui cerca de uma hora o carteiro estar passando. Mas preciso ir at ao supermercado. Estou sem comida nenhuma em casa.  Ela voltou para a rua.
"Quinze dias. Hoje faz quinze dias que mandei aquela carta. E Drake no se dignou sequer a me responder..."
Com pouco dinheiro disponvel, viu e reviu os preos das mercadorias. E no conseguiu comprar muita coisa. Quando saiu do supermercado e j andara um quarteiro, uma chuva repentina caiu sobre aquele trecho da cidade. Olvia correu, mas mesmo assim chegou molhada ao apartamento.
	Isso no  vida!  Ela colocou as compras sobre a pia. S ento, lembrou-se da carta.  Ser? Ser que a carta que tanto espero chegou?
Ela foi at  caixa de correspondncia e encontrou, alm de dois envelopes que continham propaganda, a conta de luz.
Aflita, voltou para o apartamento e tirou a roupa que estava toda molhada.
	Meu Deus, se algo me acontecer, o que vai ser de Simon? No conheo ningum que possa cuidar dele. Mas essa situao no pode ficar assim. A noite, vou escrever outra carta para Drake. E, desta vez, ele no vai poder me ignorar! Mas se mesmo assim ele ousar me ignorar, vou ao escritrio dele e insistirei at que me atenda!
O desespero e a vergonha de Olvia eram to grandes que foi impossvel conter as lgrimas.
"Estou tentando entrar em contato com um homem que me ignora, que me despreza. Mas tenho de continuar tentando. Simon merece bem mais da vida!"
Naquela tarde, ela saiu meia hora mais cedo para pegar Simon. E passou na agncia telefnica. Mais uma vez abriu a lista da cidade e conferiu o endereo de Drake.
"Esse Arundell D., que mora na parte nobre de Auckland, s pode ser ele. E s tem um Arundell D. na lista. E o endereo est correto. Mas tambm preciso o endereo da FunNZ. Vou mandar uma carta para l tambm!"
Olvia anotou o endereo da empresa e deixou a agncia telefnica. Ao passar por uma banca de jornais, parou, atrada por duas notcias. Numa revista a chamada de capa era: Estrela de tev revela que tem um filho. Na outra, Olvia leu: Fui devastada pela infidelidade dele.
	Posso ajud-la em alguma coisa?  o dono da banca perguntou.
	Essas moas que esto na capa dessas revistas so muito famosas?
	Muito, elas so muito famosas, sim  o homem respondeu com um sorriso nos lbios.
	Fico me perguntando: como  que essas mulheres deixam que suas vidas sejam devassadas pelos jornalistas?
	Acredito que elas devam ser muito bem pagas para fazerem isso.
	Hoje em dia as pessoas esto fazendo qualquer coisa por dinheiro...
Na manh seguinte, como sempre fazia depois que havia ficado desempregada, Olvia saiu  procura de emprego. Depois de preencher vrias fichas, desanimada, voltou para casa.
"Nem mesmo aquele supermercado onde fiz a entrevista h trs semanas me chamou. E eu achei que eles me chamariam logo em seguida. Pelo jeito no existe lugar para mim no mercado de trabalho". Olvia deu um profundo suspiro. "Bem, no adianta eu ficar com pena de mim mesma. Tenho de fazer alguma coisa til".
Olvia foi at o guarda-roupa e pegou um corte de tecido que comprara havia um ms.
"Realmente Simon est precisando de outra cala". Ela abriu a mquina de costura que havia ganho em pagamento por algumas roupas que tinha costurado para uma mulher muito rica, isto quando ainda no trabalhava para a fbrica, da qual tinha sido despedida.
Olvia, ento, abriu o tecido sobre a mesa e comeou a cort-lo. Apesar de adorar transformar coisas velhas em novas, Olvia no gostava muito de costurar. Ela s o fazia por extrema necessidade. Em um dado momento, parou e ficou olhando para o tecido.
"No quero, de jeito algum, continuar costurando. Gostaria de fazer algo bem mais criativo." De repente, ela sentiu uma leve tontura. "J  tarde, devo estar com fome".
Olvia preparou um sanduche mas, aps algumas mordidas, o deixou de lado.
"O que ser que est acontecendo comigo? Eu continuo tonta". Olvia sentou-se  mesa e segurou a cabea com as mos, fazendo de tudo para controlar a desesperana que se abatera sobre ela.
Uma batida na porta a tirou daquele torpor em que se encontrava.
	Quem ser que est a numa hora dessa? Eu no costumo receber visitas.
Ainda meio tonta, Olvia se levantou e abriu a porta. Para sua surpresa, Drake Arundell estava diante de si. E ele no esperou ser convidado para entrar.
Olvia sem acreditar no que seus olhos viam, fechou a porta devagar e voltou-se para encar-lo. Mas no foi nada fcil enfrentar aquele olhar sedutor.
	Oi, Drake  ela disse num fio de voz.
	Oi, Olvia.  .
	Como voc est?
- Curioso. Recebi sua carta e fiquei muito curioso para saber o qu de to urgente voc tem para me dizer.
	Ficou?  ela perguntou, sorrindo de uma maneira irnica.  No parece. Faz mais de quinze dias que lhe mandei aquela carta.
	Mas eu s a recebi hoje. Estava viajando.
	Bem, se  assim, obrigada por ter vindo.
Drake comeou a olhar para o apartamento.
"Tenho certeza de que ele est se perguntando: O que ser que Olvia Nicholls est fazendo num lugar com esse?"
	Estava costurando, Olvia?  Drake perguntou.
	 o que mais tenho feito ultimamente. At um tempo atrs eu trabalhava como costureira para uma fbrica.
	Trabalhava?
	Eu fui despedida.
	Por qu?
	A fbrica est se mudando para Fujii e despediu todos os funcionrios. O salrio de l  bem menor.
	Voc ainda parece uma chefe de torcida.
	Eu o qu?  ela estranhou aquele comentrio.
	Quando voc tinha dezessete anos, sempre a imaginava como chefe de torcida: essas moas que ficam no campo pulando e cantando para animar a torcida e os jogadores. Essas moas so sempre saudveis e muito sensuais.
Olvia tinha conscincia de que nem de longe lembrava a jovem de sete anos atrs. Ento, comentou com ironia:
	A minha aparncia saudvel se deve aos meus genes anglo-saxes.  A, ela hesitou um pouco e resolveu perguntar:  Voc se casou?
	No, eu no me casei  Drake respondeu de pronto.  Mas, casado ou no, no quero ser chantageado.
Ao ouvir aquelas palavras, Olvia se assustou. Indignada e balanando a cabea em negativa, respondeu:
	No foi por isso que eu...  algo fez com que interrompesse a frase.
	Quero que saiba que, no momento, no estou procurando uma esposa.
"Esse homem est me insultando. E exatamente isso que ele est fazendo. E eu vou ter que suportar essa agresso calada." Ela sentou-se  mesa.
	O que foi que aconteceu?
Aquela pergunta poderia estar se referindo a vrias coisas.
	Minha me morreu.  Olvia se ouviu falando.
	Sinto muito  ele disse de maneira formal.  Mas me diga uma coisa: como foi que a filha de Elizabeth Harley e neta de Simon Brentshaw ficou em uma situao dessa?
	Meu av sempre me disse que no esperasse um tosto da parte dele. Para o todo poderoso Simon Brentshaw, um jovem tinha que se fazer por si s. Ele tambm no deixou nada para a minha me.
	Bem, esses problemas de famlia no so da minha conta. Mas quero muito saber o motivo que a levou a escrever aquela carta to enigmtica.
	Simon tinha um ano quando a minha me morreu.
	E quem  Simon?  ele perguntou de uma maneira bem calma.
	Simon  o seu filho.
	Eu sabia! Eu sabia que voc estava querendo me chantagear!  Drake esbravejou.  Eu a beijei quando tinha dezessete anos, Olvia, e apenas a acariciei, mas eu nunca a levei para a cama. E felizmente, hoje em dia, j existe um meio muito eficaz para provar que essa criana no  minha.  s fazer o exame de DNA e tudo estar resolvido.
	Quem voc pensa que , hem? Quem voc pensa que  para falar comigo dessa maneira? No teria dormido com voc mesmo se...
	Se o qu? Voc estava louquinha para dormir comigo.
Fui eu que tive que lhe dizer que no estava interessado.
- Quer queira ou no, sr. Drake Arundell, Simon no  meu filho! Voc sabe que ele  meu meio irmo. E voc sabe tambm que  o pai dele!

CAPITULO II

Um silncio sepulcral os envolveu. E, no rosto de Drake, Olvia via apenas um frio desprezo.
	E como  que sabe disso?  ele perguntou, com uma voz macia, sem demonstrar nenhum tipo de emoo.
	Minha me me contou  ela respondeu, engolindo o ltimo resqucio de medo que ainda lhe restava.  Minha me tambm me contou que voc sabia sobre ele. Portanto, no venha tentar me convencer de que no sabia da existncia do garoto.
Naquele vero distante, quando Simon fora concebido, Olvia tinha se apaixonado perdidamente por Drake. E mesmo depois de ter sido rejeitada, ainda guardava na memria, no fundo do corao, o sabor do beijo que haviam trocado. Tolice e ingenuidade da parte dela, Otvia bem o sabia. Mas era impossvel deixar de esquecer a emoo do primeiro beijo, do primeiro amor que, para ela, tinha acontecido aos dezessete anos.
Mas a realidade destruiu aquele sentimento puro que a inebriara um dia. Naquele vero, enquanto estava apaixonada, sonhando secretamente com Drake, ele estava tendo um caso com a me dela.
Olvia, que j havia pensado muito sobre esse assunto, sabia que poderia t-lo perdoado por ter se relacionado com a me. Afinal, Elizabeth Harley era uma mulher belssima, muito charmosa, sensual, pela qual muitos homens moveriam cu e terra. Mas a atitude de Drake, depois daquele vero, fora imperdovel. Na verdade, ele mandara todos para o inferno: abandonara Elizabeth e havia, com extrema determinao, rejeitado o filho.
E, at naquele momento, depois de tantos anos, Drake continuava a rejeitar o garoto, continuava a dizer que Simon no era filho dele.
Apesar das feies de Drake continuarem a demonstrar uma frieza imensa, seus olhos brilhavam de uma forma diferente. Mas a rejeio existia, sim, e, para Olvia, era clara.
	Comece exatamente pelo comeo  ele disse num tom de voz que a fez dar um pulo da cadeira.  E me conte exatamente o que ela lhe disse.
Olvia hesitou. Falar significava mexer em feridas que ainda no estavam cicatrizadas. Falar significava relembrar um passado que ela preferia esquecer. Mesmo assim, tinha de ir em frente; precisava resolver aquela situao.
"Preciso me manter fria, preciso me controlar. No posso me deixar levar apenas pela raiva, pela indignao!"
	Estou esperando, Olvia. Pedi que me contasse exatamente o que ela lhe disse.
	Eu ouvi.
	Pois, ento, fale  Drake ordenou.
	Escute aqui, Drake, voc no tem o direito de me ordenar absolutamente nada, est me ouvindo?
Ele nada respondeu. Impassvel, ficou esperando.
	Simon nasceu exatamente sete meses depois que voc deixou Spring Fiat.
	Isso no significa que eu seja o pai do garoto.
	Voc , sim, o pai do Simon.
	Esse garoto pode ser filho do seu padrasto. No venha me dizer que ele no podia ter filhos. Brian tinha uma filha do primeiro casamento. Sua primeira mulher, Ramona Harley, depois da separao, levou a garota para a Amrica. Voc pode no se lembrar, mas eu me lembro muito bem dela.
Olvia olhou para as prprias mos e disse:
	Minha me me disse que, naquele vero, j fazia mais de um ano que no dormia com Brian.
	Ela simplesmente poderia estar mentindo.
	No, de jeito algum!  Olvia estava indignada com a falta de sensibilidade daquele homem que um dia amara.  E foi exatamente por causa disso que minha me e o meu padrasto acabaram brigando. Brian sabia que o filho no era dele.
De novo o silncio caiu entre os dois. E foi Drake quem o quebrou:
	Como foi que sua me morreu?
Olvia de um profundo suspiro e respondeu:
	Ela caiu. Minha me caiu, bateu a cabea e morreu.
	E como foi que voc veio parar aqui com o seu meio irmo? Pelo que sei, o seu padrasto ainda est vivo.
	 verdade, meu padrasto ainda est vivo. Mas eu no podia continuar naquela casa. Ele era muito grosseiro, muito cruel com o Simon. A, peguei o garoto e sa de l.
	E ele no fez nada para impedi-la?  Drake parecia meio surpreso.  Afinal, quando saiu de l voc tinha dezessete... No, voc deveria ter dezoito anos. Estou enganado?
	E isso tem alguma importncia?  Olvia voltou a olhar para as mos e sentiu uma vontade muito grande de brigar com Drake. Porm, mais uma vez, voltou atrs e disse:  Quando sa de casa, eu estava com dezenove anos. Mas, independentemente da idade com que sa de casa, Simon continua sendo seu filho. E tenho certeza de que o exame de DNA vai lhe provar isso.
Olvia sentia que Drake estava observando e analisando o menor gesto que fazia. E no estava gostando nada daquilo.
	Me diga por que saiu da casa do seu padrasto.
	Eu j lhe disse.
	E eu no acreditei. Agora eu quero a verdade: por que deixou aquela casa?
Olvia sentiu todo seu corpo tremer. Mas como tinha j pensado em uma resposta para aquela pergunta, que sempre soube previsvel, respondeu demonstrando tranquilidade:
	Meu padrasto no gostava de Simon. Eu tinha medo que o garoto acabasse sendo ferido.
Olvia, que esperava mais perguntas sobre aquele assunto, se espantou quando Drake disse:
	Certo. Seu padrasto no gostava do garoto. E por que demorou tanto tempo para me procurar?
	Simplesmente porque voc tinha deixado bem claro que no queria mais saber da minha me e nem do seu filho. E tambm porque, depois do acidente, voc desapareceu.
	E como acabou me encontrando?
	Porque eu vi uma foto sua no jornal.
	Sei...  ele disse e, em seguida, comentou de uma maneira muito irnica:  A, voc resolveu: chegou a hora de agir!
	No  nada disso!
	Ento, por que resolveu me procurar?
	Porque Simon tem um problema srio no ouvido, entendeu? Se ele no se tratar, vai acabar ficando surdo. Ele no consegue ouvir direito o que a professora fala e, por isso, aprende bem menos do que  capaz. E a doena dele s foi detectada depois que comeou a frequentar a escola. E Simon, que adorava a ideia de estudar, agora est arredio e s vai para a escola por causa da minha insistncia. Simon no suporta mais as chaGotas dos colegas que vivem dizendo que  um imbecil.  Olvia fez um pausa.  E ele  um menino muito inteligente. S no est conseguindo se sair bem na escola porque no ouve direito. Seu filho precisa de ajuda!
	A devoo que tem por esse garoto  exemplar. Mas voc escolheu o homem errado. No sou fraco o suficiente para deixar que impinja o seu filho a mim.
	Meu filho?  ela perguntou indignada.  Simon no  meu filho! Drake, por favor, voc no pode virar as costas para ao garoto numa hora dessas!
	Voc est absolutamente certa  ele se expressava com uma voz pausada, calculista.  E no daria as costas ao meu prprio filho se tivesse agido da maneira correta. Se tivesse me escrito uma carta onde me explicasse tudo, eu poderia t-lo ajudado. Mas voc preferiu me ameaar.
	Eu no ameacei voc.
	Ameaou, sim. E eu no sou um homem que se deixa chantagear facilmente.
	No posso acreditar no que estou ouvindo!  ela gritou, dedo em riste.  Se no ajudar Simon espontaneamente, vou aos jornais e...
Olvia no terminou de dizer a frase. Drake se aproximou e segurou-lhe o pulso com muita fora.
	Pare! Pare j com isso!
Apavorada com a reao de Drake, ela no sabia se lutava ou fugia. Se lutasse, poderia sofrer graves consequncias fsicas. Se fugisse, temia pelo bem-estar de Simon. Drake poderia resolver fazer algo contra o garoto.
	Me solte!  ela gritou.
	No, eu no vou solt-la.
	Voc deve estar se sentindo o mximo, no? Um homem alto, forte, em pleno vigor fsico, atacando uma mulher indefesa. Isso  muita covardia de sua parte!
	No estou atacando voc. Estou apenas me defendendo.
	Claro, mas  claro que est se defendendo  ela ironizou.  Coitadinho do Drake Arundell, do famoso Drake Arundell... A verdade o acertou em cheio e ele est precisando se defender.
	Pare com isso!
	Solte o meu pulso! Ou...
	O que foi? O que voc vai fazer se eu no soltar o seu pulso?
	Vou  polcia denunci-lo por agresso fsica e moral.
	Isso tambm  chantagem, srta. Nicholls.
	No, isso no  chantagem, sr. Arundell. Ir  polcia  o que deveria fazer qualquer mulher quando encontra diante de si um ser abjeto como o senhor.
A firmeza de Olvia fez com que Drake lhe soltasse o pulso. Naquele momento, a porta do apartamento se abriu.
	Olvia, eu cheguei.
"No, meu Deus! Isso no poderia ter acontecido. No estou preparada para esse encontro entre Simon e Drake. Tenho medo de que algo possa acontecer ao meu irmozinho. Ele no merece ser tratado com indiferena, com falta de respeito. Simon j sofreu demais para a pouca idade que tem."
Inspirando profundamente, ela olhou para o garoto.
	Quem  ele?  Simon quis saber.
	O que est fazendo to cedo em casa?  ela respondeu a pergunta do garoto com outra.  Suas aulas terminam bem mais tarde.
	Mas hoje a gente saiu mais cedo.
Por qu?  Olvia perguntou, aflita
	Tivemos um concerto l e, quando terminou, eles mandaram a gente para casa.
	E voc veio sozinho?
	Vim. Eu j estou grande, Olvia, no se preocupe.
	Voc ainda  um garotinho.  Ela deu um abrao no irmo.
	Mas estou bem crescido para a minha idade.  Simon voltou a olhar para Drake e insistiu na mesma pergunta que fizera h pouco:  Quem  ele?
	Esse, Simon,  o sr. Drake Arundell.
	Oi  o garoto disse com extremo cuidado, parecendo pressentir algo de errado ali naquela sala.  Meu nome  Simon Harley.
Bastante encabulado, o garoto olhou para Olvia.
	E como est voc?  Drake, ento, perguntou e estendeu-lhe a mo.
Cauteloso, Simon apertou a mo que lhe era estendida e disse:
	Bem, e o senhor? Aquele carro que est l fora  seu?
Olvia, naquele instante, comparava o rosto de Simon ao de Drake. E, por mais que tentasse, no encontrava nenhuma semelhana. Simon era muito parecido com ela e com Elizabeth.
	Aquele caro  meu, sim  Drake respondeu.
	Querido, v lavar as suas mos  Olvia resolveu interferir na conversa , elas esto imundas.
	O que voc disse?  Simon a fitou meio desentendido.
	Pedi para voc ir lavar as mos. Elas esto imundas  Olvia voltou a dizer, agora bem devagar e num tom de voz mais anasalado.
	Certo.  Simon olhou para Drake, sorriu, e foi para o banheiro.
Ao ouvir a porta do banheiro se fechar, Drake voltou  carga, mas em voz baixa:
	Pelo menos voc no pode alegar que o menino seja parecido comigo. Ele ...
	No continue. Por favor, no continue. Agora no podemos continuar conversando sobre esse assunto.
	E eu no quero mais continuar conversando sobre esse assunto. Nem agora, nem nunca!
Sem mais nada dizer, Drake saiu do apartamento e bateu a porta com fora.
Desesperada, Olvia se aproximou da porta do banheiro. L dentro, Simon cantava uma cano de ninar. Ela, ento, foi at  janela e ainda pde ver o carro de Drake se afastando.
"Isso no  justo! Em que Drake Arundell se tornou, num monstro? Ser que no sente a menor compaixo pelo que Simon est vivendo? Eu no o ameacei. No, de jeito algum. Fiquei muito tempo pensando em lhe escrever uma carta e no fui capaz. A, acabei lhe enviando aquele bilhete..."
A porta do banheiro se abriu e Simon logo estava de volta na sala.
 U... Ele j foi embora?  o garoto perguntou, com uma certa frustrao.
	Foi, ele estava com pressa.
	O carro dele  muito bonito. Voc no achou, Olvia?
	E... O carro dele  muito bonito.
	E  azul. Eu adoro azul. E nunca tinha visto um carro daquele.
Simon sentou-se, ps as mozinhas sobre o colo e perguntou:
	Quem  o sr. Arundell?
Olvia tambm j ensaiara muito a resposta que teria de dar quela pergunta. Com desenvoltura, respondeu:
	Uma pessoa que eu conheo faz tempo.
Simon parecia estar considerando a resposta.
	E ele vai voltar?  o garoto quis saber, aps alguns segundos de reflexo.
	Possivelmente.  Olvia tentava se mostrar o mais natural possvel.  Que tal, agora, voc comer um sanduche?
	Acho uma boa ideia. Estou com fome.  Simon saiu da cadeira.  Depois voc l um pouco para mim?
	Leio, mas  claro que leio. Mas antes voc vai ter que fazer a lio de casa.
	Combinado.
Enquanto Simon preparava o sanduche, Olvia repassou, palavra por palavra, cena por cena, tudo o que em poucos minutos tinha acontecido ali no apartamento.
"Realmente  inacreditvel! Drake no podia e nem tinha o direito de abandonar o Simon numa hora dessa. Meu irmo precisa de tratamento. Se ele ficar surdo, jamais vou me perdoar!"
Naquele tarde, Olvia se dedicou integralmente a Simon. Verificou-lhe a lio de casa, e leu para ele um longo trecho de um livro de histria. Depois, com muita pacincia, comeou a contribuir com a alfabetizao do garoto.
" s falar com Simon bem pausadamente e no tom de voz exato. A, ele aprende com muita facilidade..."
Depois que terminou o trabalho com o irmo, Olvia preparou um sopa de legumes e carne. Durante o jantar, Simon lhe disse que estava muito contente pois sentia que comeava a aprender a ler.
"Tudo seria bem mais fcil se ele pudesse ouvir direito. Que pena, meu Deus do cu, que pena... Mas eu no posso deixar as coisas assim. Vou continuar lutando pela sade de Simon. E ainda existe o teste de DNA. Se Drake realmente continuar tentando negar a paternidade do Simon, ele vai ter de se submeter ao teste!"
Aps ter lavado a loua e limpado a cozinha, Olvia decidiu que iria escrever de novo para Drake. E tinha que fazer aquilo sem perda de tempo.
Ela abriu a gaveta da mesa e pegou papel e caneta.
Simon, que estava sentado em uma cadeirinha, se esforando para ler uma revistinha infantil, se aproximou dela.
	O que voc vai fazer, Olvia?
	Vou escrever uma carta.
	Uma carta? Para quem voc vai escrever uma carta?  Simon estava curioso.
	Para um homem.  Olvia suspirou.  E no adianta me perguntar para que homem eu vou escrever a carta. E um segredo.
	Um segredo? E o que  um segredo?
	Um segredo  algo que a gente guarda dentro do peito e no conta para ningum, entendeu?
Simon pensou um pouco e respondeu:
	Eu acho que sim.
"Como esse menino  bonzinho! Ele  um santo. Faz tudo o que eu peo, no reclama de nada..."
	Bem, voc escreve a carta e eu vou ler a minha revistinha.
	Combinado.
Na hora em que o garoto estava se afastando, Olvia o chamou e perguntou:
	Voc no vai me dar um abrao?
Simon abriu os braos e a abraou.
	Eu adoro voc, meu querido.
	Eu tambm adoro voc, Olvia.
	Voc  um menino muito corajoso.
	Eu no sou um imbecil?
	Mas  claro que no.  Ela sentiu os olhos.se encherem de lgrimas.  Voc  o menino mais inteligente que encontrei em toda a minha vida.
	Verdade?  Simon duvidou.
	Verdade verdadeira  ela brincou.  Pode acreditar em mim.
	Pena que eu no escuto direito. Se eu escutasse, j estava sabendo ler e podia ler aquela revista direitinho.
	Se Deus quiser, meu amor, voc vai ser operado.
	E se Deus no quiser?  Simon perguntou, triste.
Em resposta, Olvia o abraou e disse:
	V, v ler a sua revistinha. Eu preciso escrever a carta.
Simon foi para o sof e comeou a tentar decifrar as palavras.
"Tenho que tomar uma atitude drstica! Drake Arundell vai saber que eu tambm sei jogar duro quando quero! Simon vai, sim, fazer a operao!"
Decidida, ela pegou a caneta e escreveu:
Querido Drake,
Tenho certeza absoluta que no vai querer ser capa de uma revista, como essa que estou lhe mandando. Fique sabendo que, se for essa a nica maneira que eu tiver para conseguir o dinheiro para a operao do Simon, no hesitarei em contar ao mundo todo quem  o grande Drake Arundell. E pode estar certo: agora eu estou, sim, o ameaando. E no sou mulher de voltar trs naquilo a que me proponho.
Olvia Nicholls
Ela leu o que tinha escrito, dobrou o papel e colocou dentro de um envelope.
"Amanh eu compro a revista e mando junto com a carta. Drake vai ter que dar o dinheiro que Simon precisa para a operao. Mas vai mesmo!"
Na manh seguinte, depois de deixar o irmo na escola, Olvia passou por uma banca de jornais e comprou a revista com a chamada de capa mais escandalosa que j tinha visto na vida. Na agncia dos correios, retirou a capa da revista, colocou-a dentro do envelope e postou a carta.
Porm, quando se dirigia para casa, comeou a sentir muito medo.
"No tinha pensado, mas Drake pode entrar em contato com o meu padrasto e dizer a ele onde Simon e eu estamos. E no quero que ele fique sabendo do nosso paradeiro!"
Olvia continuou remoendo as suas preocupaes.
Ao chegar no apartamento, resolveu tomar um banho para depois voltar a sair e procurar emprego. Felizmente, ao sair do banho sentia-se mais tranquila.
"No, Drake jamais ousaria procurar o meu padrasto. Jamais!" 
No final da tarde do terceiro dia em que tinha enviado a carta para Drake, Olvia estava muito nervosa. A qualquer momento, com toda certeza, ele tomaria uma atitude. E precisava estar preparada para qualquer situao. Ela olhou para Simon que adormecera no sof, depois de ter chegado da escola.
"No posso me arrepender de ter mandado a carta. Estou fazendo tudo, tudo o que est ao meu alcance e no consigo arrumar emprego. E mesmo que eu arrume um emprego, o meu salrio pode ser baixssimo e jamais conseguirei dinheiro para pagar a operao."
Olvia que estava sentada no sof, olhando para o teto, ouviu uma batida forte na porta.
" ele! Tenho certeza de que  ele!".
Ela se levantou, foi para junto da porta e perguntou: .    Quem ?
A resposta foi imediata:
Abra essa porta!
Olvia ergueu os ombros, inspirou profundamente, abriu a porta e disse:
	Entre, Drake.
Pisando forte, ele entrou no apartamento e, ao ver o garoto no sof, perguntou:
	E a que ele dorme?
	No, Simon dorme numa cama no quarto.
	Junto com voc?
	No, o quarto  s para ele. Eu durmo no sof.
	Quando a vi pela ltima vez naquele vero, voc morava numa casa excelente, seu padrasto era o contador mais procurado da cidade e voc pretendia cursar a faculdade de direito. As coisas mudaram muito...
Olvia no gostou nem um pouco da ironia daquele comentrio. No instante em que ia responder  altura, Drake continuou:
	Bem, no precisa me falar agora a respeito dessa histria toda. Amanh cedo a gente conversa l no meu escritrio.
	Eu no vou ao seu escritrio.
	Fale baixo. O garoto pode acordar.
	O nome dele  Simon! Simon, entendeu? E ele no vai acordar!
	Para mim tanto faz o nome que tenha.  Drake abriu uma maleta de couro que trazia nas mos, pegou um carto e colocou sobre a mesa.  Esteja no meu escritrio exatamente s onze horas. No se esquea: eu disse exatamente s onze horas. Se no comparecer ao nosso encontro, Olvia, quem vai bater na sua porta ser a polcia. Voc cometeu o maior erro ao me escrever a ltima carta. Se no for me encontrar amanh, vou acus-la de extorso!
Perplexa, Olvia no foi capaz de dizer absolutamente nada para se defender. Drake, ento, abriu a porta e disse antes de sair:
	Amanh, Olvia. No meu escritrio. As onze!
Na manh seguinte, cinco minutos antes do horrio marcado, Olvia chegava no prdio onde funcionava o escritrio de Drake. Depois de passar por seguranas, finalmente foi recebida pela secretria dele que, indicando-lhe um sof preto de couro, pediu que aguardasse.
Ansiosa, ela sentou-se:
"Agora sei exatamente o porqu de ele ter marcado o encontro aqui. Drake quer me intimidar. Ele quer que eu saiba exatamente onde  o meu lugar. Mas Drake no vai me impressionar com tanta ostentao. S vim aqui para resolver o problema do Simon. Por aquele garoto, eu fao qualquer coisa."
	Por aqui, senhorita  a secretria disse, indicando-lhe o caminho a seguir.
Ombros e cabea erguidos, Olvia acompanhou a secretria e entrou num escritrio muito bem decorado.
Sentado atrs de uma escrivaninha imensa em madeira escura, Drake a fitava intensamente.
	Obrigada, Maria  ele disse  secretria.
	Mais alguma coisa, senhor?
	Providencie algo para ns comermos. E feche a porta ao sair.
	Sim, senhor.  Assim que Maria deixou o escritrio, ele voltou-se para Olvia e disse:  Sente-se. Voc me parece exausta.
	E estou.  Ela continuou de p.
	Teve uma noite muito ruim?
	No, particularmente  Olvia mentiu. Na verdade, havia passado a noite inteirinha em claro.
	Voc  corajosa, Olvia, mas extorso  um crime muito srio.
	Tambm  muito srio um homem no querer saber de um filho que est doente, precisando de ajuda.
	Sente-se.
	Prefiro continuar de p.
	Eu disse para sentar-se.Drake estava perdendo a calma.
"Acho melhor eu me sentar mesmo. No porque o todo poderoso Drake Arundell est me ordenando, mas porque estou muito cansada."
Olvia sentou-se numa poltrona em frente  escrivaninha.
	Assim est bem melhor  ele disse com uma certa satisfao na voz.  E tente no dificultar a nossa conversa. Caso contrrio, eu chamo a polcia.
	Estou morrendo de medo de voc  ela ironizou.
	Bem, agora voc est querendo dinheiro para a operao do garoto. E depois? Para qu vai querer mais dinheiro?  Drake deu um sorrisinho de desdm.  Os chantagistas sempre tm uma boa razo para continuarem extorquindo mais e mais dinheiro.
Uma leve batida na porta se fez ouvir.
	Entre, Maria.
A secretria entrou com uma bandeja nas mos e a colocou diante de Olvia. Em seguida, retirou-se da sala.
	Coma alguma coisa, voc est plida como cera.
	Muito obrigada, eu no quero nada.
	Coma um sanduche, ele est muito bom.
- Est mesmo? Como sabe disso?
	Sempre como esses sanduches na hora do almoo.
 Eu no quero comer.  Olvia foi taxativa.
	Bem, ento me diga o que a levou a desistir da universidade.
	No podia deixar a minha me.
	No? E por qu?
	Ela confiava em mim. E precisava muito da minha presena. Ela estava doente.
	Foi ela, ento, que lhe disse que sou o pai do garoto.
	No, na verdade no foi a minha me quem me disse que Simon era seu filho. Eu a ouvi contando ao meu padrasto.
Durante longos segundos, nem um dos dois disse uma palavra sequer.
Drake pigarreou e perguntou:
	E o que a leva a pensar que sua me estava dizendo a verdade?
	Simplesmente porque ela era a minha me. Voc no acredita na sua me?
	Sempre. Minha me nunca mente.  Drake mexeu numa caneta que estava sobre a escrivaninha.  E como foi que o seu padrasto reagiu  notcia que ela lhe contou?
	Como voc reagiria?
	Muito mal.
Olvia ainda conseguia se lembrar, com detalhes, a briga que acontecera entre a me e o padrasto aps a revelao.
	Ela devia me odiar muito.
	E voc queria o qu? Afinal voc a abandonou, voc a deixou  merc das agresses do meu padrasto.
	Por qu? Por que ela continuou com aquele homem? Deveria ter voltado para a casa do pai dela.
- Eu concordo com voc. Mas ela no fez isso. E meu av estava doente. Ele acabou morrendo alguns meses depois que Simon nasceu. Acho que minha me simplesmente perdeu a vontade de viver.
	Por que voc acabou fugindo de l? E no me venha com mentiras, Olvia.
	Bem, vamos  verdade: acho que foi o meu padrasto quem a matou. Um dia, ele chegou bbado da rua e brigou mutio com a minha me. Eu tentei fazer com que ele parasse de agredi-la, mas minha me pediu que eu voltasse para o meu quarto. Cerca de dez minutos mais tarde, eu a ouvi subir a escada chorando. Permaneci no meu quarto.
	Por qu?
	Minha me no gostava que eu a visse chorando. Na manh seguinte, eu a encontrei inconsciente, cada no cho. Ela morreu alguns dias depois. O atestado de bito diz que ela caiu e bateu a cabea na quina do criado-mudo.
	E voc no contou a ningum sobre a briga que tiveram?
	No, eu no contei nada a ningum. Na ocasio nem me passou pela cabea a possibilidade de ele t-la matado. Isso s me passou pela cabea depois. Acontece que fui eu quem limpou o quarto da minha me depois que a encontrei cada no cho. E, sob a cama, estava a gravata de meu padrasto. Ele nunca entrava no quarto da minha me. Hoje tenho certeza de que ele esteve l naquela noite.  Ela deu um profundo suspiro.  A, cerca de quinze dias aps
a morte da minha me, levantei de madrugada para ver se estava tudo bem com Simon. Ao entrar no quarto dele, deparo com o meu padrasto, ao lado do bero, com um travesseiro na mo. Eu perguntei o que estava fazendo l quela hora da noite? Ele simplesmente me respondeu que o garoto poderia estar precisando de um travesseiro. Apavorada, fiquei a noite inteira ao lado do bero do Simon e, na manh seguinte, fugi.
	E ele a seguiu?
	No sei  ela respondeu com a voz trmula.
	E para onde vocs foram?
	Para a casa de uma grande amiga, Emma, que estava de partida para a Universidade de Victoria, em Wellington. Ao chegar l, contei tudo a ela e ao irmo que estava lhe fazendo uma visita. Emma, que me conhecia muito bem, acreditou em mim e resolveu me ajudar. E sugeriu que eu fugisse no trailer do Neil. No final, acabei indo trabalhar na casa dele, que  joalheiro. Ele precisava de algum que tomasse conta de sua casa. Fiquei por l durante dois anos.
	E por que resolveu sair da casa dele?
	Neil estava querendo se mudar para a Austrlia. E eu no podia acompanh-lo. Simon precisava de um passaporte e eu no podia me arriscar. Sob hiptese alguma meu padrasto podia descobrir onde ns estvamos. A, resolvi vir para c.
	Quanto tempo faz isso?
	Trs anos.
	Quer dizer, ento, que tem trabalhado esse tempo todo para sustentar o garoto.
	Tenho feito tudo o que sou capaz.
	Por que no me procurou antes?
	Eu sabia que voc no queria saber de Simon. E tambm no sabia onde encontr-lo. A, a situao se complicou.
O menino precisando de uma operao, a perda do meu emprego...  Ela estava com muita vontade de chorar. Voc precisa ajudar o seu filho, Drake.
	Onde voc arrumou dinheiro para pagar a conta do hospital quando o garoto foi internado?
	Como voc sabe que Simon foi internado?
	Mandei investig-la.
	No gostei dessa sua atitude.
	Para mim isso no tem a menor importncia. Onde foi que arrumou o dinheiro?
	Meu vizinho me emprestou.
	Dois mil dlares?  ele perguntou, espantado.
	Exatamente.
	E o seu vizinho  um homem rico?
	No, ele  apenas um bom homem. E ainda estou devendo esse dinheiro a ele.  Ela o fitou bem dentro dos olhos.  E, se Deus quiser, vou pag-lo. Agora, quanto a voc, espero que faa o exame de DNA.
	E se eu me negar a fazer o exame?
	Pode esperar pelas consequncias: Simon , sim, seu filho.
Drake pensou um pouco e, quando Olvia imaginou que fosse ouvir algo ofensivo, ele disse apenas:
	Tudo bem: voc, Simon e eu faremos o exame.

CAPITULO III

Ao ouvir aquilo, numa frao de segundo, Olvia ^passou de uma alegria imensa para a desconfiana. Por qu? Drake havia concordado rpido demais. Nem quando pensara que ele fosse casado, nem quando o havia ameaado com um escndalo, tinha imaginado que ele fosse concordar com o exame, sem antes fazer muito estardalhao.
	Estamos combinados?  ele perguntou com frieza.
	Por que eu tambm tenho que me submeter ao exame?
	Se voc no quiser cooperar, tenha certeza de que no vai obter nenhuma ajuda da minha parte. E pode ter certeza tambm de que as suas ameaas no me preocupam. Se ousar fazer um escndalo numa dessas revistas, voc mesma vai sofrer as consequncias dos seus atos. E ver se materializar o seu maior medo.  Drake inspirou profundamente e continuou, ainda com muita frieza:  Voc sabe do que eu estou falando, no sabe? Se ousar fazer um escndalo, seu padrasto vai ficar sabendo do seu paradeiro. E se estiver envolvida num caso judicial srdido comigo, no ser capaz de manter o seu irmo longe dessa situao toda.
	Voc  um ser completamente desprezvel. E eu o detesto, Drake Arundell.
	Mas, pelo que vejo, no despreza o meu dinheiro.
	Simon  seu filho! Algum tem que cuidar dele!
	Se ele for meu filho, eu cuidarei. Mas fique sabendo que cuidarei s dele. No vou facilitar a vida para voc, mocinha.
Olvia estava nervosa. Drake sabia jogar duro, duro demais. Ao olhar para a bandeja, ela sentiu o estmago revirar.
"Ainda bem que no toquei nesta comida, seno, na certa, estaria me sentindo bem pior."
	No quero o seu dinheiro para mim.  Ela se levantou e fez meno de sair do escritrio.
	Fique exatamente onde est  ele ordenou.  E me oua. Quero que me oua com bastante ateno, porque  a ltima vez que vou lhe dizer isso. No sou o seu bilhete premiado, nem sou o seu passaporte da sorte que vai lhe dar direito a voltar ao tipo de vida que abandonou quando fugiu de casa.
	Eu sei disso. E repito: no quero o seu srdido dinheiro para mim.
	Otimo.  Drake se levantou e se aproximou de Olvia.  Mas ns dois sabemos que esse menino no  realmente meu filho, no sabemos? E voc no precisa continuar insistindo nessa histria de teste de DNA. Tenho certeza de que, se conversarmos, poderemos chegar num acerto sem precisar envolver a lei.
Olvia percebeu que aquela conversa tinha se tornado surrealista. Drake estava tentando ludibri-la. Se no fizesse o teste, jamais ficaria provado que ele era o pai de Simon.
De repente, todo o desespero, toda a tenso que sentia, pareceu redobrar. E ela sentiu que as luzes do escritrio enfraqueciam, que tudo rodava. Com medo de cair, se apoiou em Drake que, sem titubear, a beijou. O contato com aquela boca que j desejara tanto, fez com que o mal-estar que sentia passasse, como que por milagre.
	Espere a, eu...  Ela tentou afast-lo de junto a si.
	Viu s?  Drake agora lhe beijava o pescoo.  Pelo que posso perceber, muitas coisas no mudaram.
Indignada, usando toda sua fora, Olvia o empurrou.
	Pare com isso! Voc entendeu tudo errado!
	Ser? Ser mesmo que entendi tudo errado?  Drake perguntou de uma maneira bastante insinuante.
	Voc no presta!
	E voc, Olvia Nicholls, voc pode dizer que  um exemplo de mulher? Achou que eu iria deixar me enganar com tanta facilidade?
	No estou enganando voc.
	No est?
	No estou, no estou enganando voc! E tudo vai ficar provado quando sair o resultado desse teste, sr. Arundell!
	Quer dizer, ento, que insiste no teste?
	Mas  claro que insisto. S ele vai poder provar que estou dizendo a verdade. E quero ver voc quando estiver com o resultado nas mos. A, no vai poder negar que  realmente o pai do Simon.
	Bem, j que insiste mesmo neste teste, ns o faremos. Vou providenciar tudo.
	Faa isso: providencie o teste. E quando estiver tudo certo, entre em contato comigo.  Ela se dirigiu para a porta. Mas, ao tocar a maaneta, tudo ao seu redor comeou de novo a girar.
	O que est acontecendo com voc?  ele quis saber.
	Nada, eu estou bem.
	No, voc no est bem. Sente-se mais um pouco.
	Eu quero ir embora daqui.
	Mas no pode sair desse jeito. Est plida demais. Eu levo voc para casa.
	De jeito nenhum!
	Olvia, pare de agir como criana. No vou deix-la na primeira delegacia que encontrar, embora merecesse que eu fizesse isso.
Dez minutos mais tarde, Olvia, no mais completo silncio, estava sentada ao lado de Drake, no carro que tanto havia impressionado Simon. Apesar dos protestos dela, Drake a fizera aceitar a carona e depois se dirigira a um local da cidade onde pudessem conversar  vontade.
	Por que tem tanta certeza de que o garoto  meu filho?  ele perguntou, de repente.
	Eu sei que ele  seu filho, sr. Arundell  Olvia respondeu entre os dentes, com muita raiva.
	No acha que  muito tarde para me tratar desse jeito?
	No entendi...
	Olvia, no adianta agora tentar formalizar a nossa relao. Pare de me chamar de sr. Arundell. E, se esse teste provar a minha paternidade, estaremos ligados para sempre. Sendo assim, dispenso esse tipo de tratamento.
Olvia no tinha a menor vontade de continuar com aquela conversa. Estava se sentindo cansada, desanimada, e profundamente decepcionada com a vida.
E a decepo de Olvia se devia ao fato de ele nunca ter negado o caso que tivera com Elizabeth Harley.
"E eu, sonhando com o beijo que tnhamos trocado. Quanta ingenuidade. Eu, achando que Drake fosse o meu prncipe encantado e ele tendo um caso com a minha me... Como a vida  irnica, como a vida  imprevisvel..."
	Se a sua paternidade ficar provada, o que est pretendendo fazer?  ela resolveu perguntar.
	Acho que deveria estar preocupada com o que voc est pretendendo fazer, se essa paternidade ficar provada.
	Para ser honesta, no pensei sobre isso ainda. At agora s me preocupei em cuidar direito do Simon. Sinto como se ele fosse meu filho. E depois que ficar provado que voc  o pai dele, no h nada que meu padrasto possa fazer para mago-lo. E  isso o que realmente importa.
	Mesmo com a minha paternidade provada, est pretendendo continuar morando com o garoto naquele apartamento?
	No  Olvia respondeu prontamente.
	Foi o que eu imaginei. Garanto que est imaginando ir morar num lugar melhor, fazendo uso de uma boa mesada. A, voc paga aquela dvida e comea uma vida nova.
	No, no  isso que estou pensando em fazer.
	Ainda bem. Pois saiba que, se esse garoto for mesmo meu filho, ele vai morar comigo.
Ao ouvir aquilo, Olvia teve que se controlar para no entrar em pnico.
	Por qu? Por que quer que Simon more com voc?
Voc no sente nenhum afeto pelo meu irmo. Muito pelo contrrio, voc o despreza.
	Voc realmente continua pensando que eu seja um alvo fcil, um homem que pode ser manipulado com muita tranquilidade, no ? Pois acredite: est enganada.
	Mas eu pensei que...
	Pensou o qu? Pensou que eu fosse me dar por satisfeito em apenas pagar pela educao dele? Se for meu filho, quero participar da vida desse garoto.
	Por que isso agora? No estou entendendo.
	O que voc no est entendendo?
	Drake, voc sempre soube da existncia de Simon e nunca procurou entrar em contato com a minha me, nem comigo.
Ao contrrio do que ela esperava, Drake fez um outro comentrio que nada tinha a ver com o que estavam discutindo.
	Quem diria, hem? Quem, h sete anos, diria que iramos nos encontrar de novo numa situao como essa?
	De fato...  Olvia comentou sarcasticamente.  Quem diria!
	Mas isso no deixa de ser uma experincia muito interessante.  Drake a fitou.  Sabia que jamais me deixei chantagear antes?
	Eu no estou chantageando voc.
	Claro que no.  Mais uma vez ele foi sarcstico.  Voc me procurou para me oferecer ajuda, para dizer que est disposta a me ajudar naquilo que eu precisar.
	Pare de falar dessa maneira. Como j cansei de lhe repetir, s quero dinheiro para poder cuidar da sade do Simon.
	Sei...
	E verdade.
	Bem, ns vamos fazer esse tal de teste de DNA. Depois, ns voltaremos a conversar.
Sem dizer mais uma s palavra, Drake ligou o carro e a deixou em frente ao prdio onde morava.
Dois dias depois de ter conversado com Drake, Olvia recebeu uma telegrama do advogado dele, que lhe pedia para comparecer com urgncia em seu escritrio, munida de vrios documentos. Naquele mesmo dia, depois do almoo, ela o procurou. Depois de verificar a documentao, o advogado fez um telefonema. Aps ter desligado o aparelho, voltou-se para Olvia e disse:
	Amanh, s oito horas, Drake vai passar na sua casa para lev-los fazer o exame.
	Por mim est timo.
Olvia continuou acertando mais alguns detalhes com o advogado e, mais tranquila, saiu do escritrio. Enfim, tudo seria resolvido.
No dia seguinte, no horrio marcado, Drake foi busc-los. Depois de terem ido ao laboratrio para tirarem amostras de sangue, ele os levou para casa.
Simon, encantado com a oportunidade de andar no Jaguar azul e com o sorvete que Drake havia lhe comprado, no se importou nem um pouco em ser picado para colher a amostra de sangue.
Quando Drake estava indo embora, Olvia perguntou:
	E os resultados dos exames?
	Vai ficar sabendo deles. Os resultados vo direto para o meu advogado.	
	E como vou.ficar sabendo se vocs esto sendo sinceros comigo?
	Eu no minto, srta. Nicholls.
	Mas  claro que no  ela ironizou.  Mesmo assim eu quero v-los.
	Voc os ver.
Olvia passou uma semana de extrema agonia, apesar de saber que os exames feitos comprovariam a paternidade de Drake. A agonia dela era tanta que acabou ficando com uma forte gripe, e a bronquite, que h muito no a incomodava, acabou voltando.
"Meu Deus, como estou me sentindo mal...", ela pensava, enquanto olhava para Simon, que j estava de pijama, pronto para dormir. Estou tonta e mal consigo manter os olhos abertos."
	Voc viu o meu lpis, Olvia?
	No, meu querido, eu no vi.
	Deve estar l no quarto.  O garoto a deixou sozinha.
De repente, algum bateu na porta.
	Quem ?  ela perguntou, respirando com muita dificuldade.
	Drake Arundell.
Olvia sentiu o estmago se contrair. Devagar, ela se levantou e foi abrir a porta.
	O que est acontecendo com voc?  Drake perguntou, assim que a viu.
	Nada.  Ela inspirou com dificuldade.  Entre.
	Os resultados saram  ele disse e fechou a porta.
	Otimo.
Naquele instante, Simon voltou para a sala segurando um pequeno objeto oval.
	Olvia, olha o que eu encontrei dentro do ba que est debaixo da minha cama. Eu estava procurando o meu lpis e acabei achando isso aqui.  S ento o garoto pareceu se dar conta da presena de Drake.  Oi, sr. Arundell.
	Como tem passado, Simon?  ele perguntou de uma maneira formal.
	Eu tenho passado bem, a Olvia  que no est nada boa. A bronquite dela voltou.  O garoto se dirigiu de novo  irm.  Esse retratinho no  engraado?
	Deixa eu ver isso  Drake pediu.
Simon, obediente, lhe entregou o delicado porta-retrato oval. Drake, ento, ficou olhando para aquela figura de mulher,
	Isso  muito estranho  Olvia disse sem querer, depois de ter observado melhor a pintura.
	O que  muito estranho?  Drake quis saber.
	Por incrvel que possa parecer, sonhei com essa jovem mulher no faz muito tempo. "E foi ela quem me disse para escrever para Drake".
	Onde voc conseguiu esse objeto?  Drake quis saber.
	Pertencia a minha me. E ela, quando me presenteou com ele, me fez prometer que jamais o venderia, nem me livraria dele. Quando fugi de Spring Fiat, eu o trouxe comigo. Mas tinha me esquecido da sua existncia. Nem quando na semana passada precisei pegar os documentos na caixa, eu vi esse porta-retrato.
	Talvez ele tenha ficado em algum canto da caixa que voc no mexeu.
	Possivelmente...
	Eu gostei da cara dela  Simon comentou e quebrou a tenso que havia aumentado entre Olvia e Drake, depois do aparecimento daquele pequeno porta-retrato.
	Ela  linda, no ?  Olvia perguntou ao irmozinho.
	Estou muito feliz que tenha encontrado o porta-retrato, meu amor. De agora em diante, vou cuidar melhor dessa linda mulher. Ela era muito importante para mame.
Olvia estendeu a mo para pegar o pequeno objeto oval e notou que Drake relutava em entreg-lo. Mesmo assim, continuou com a mo estendida e, finalmente, Drake o devolveu.
	E os resultados dos exames?  ela perguntou, sentindo uma forte energia emanar do objeto que estava em sua mo.
	Voc sempre soube qual seria o resultado.
Apesar de estar absolutamente certa quanto ao resultado dos exames, Olvia sentiu uma forte emoo. Finalmente, Deus atendia as suas preces e Simon iria poder ter o tratamento que merecia.
"Voc no vai mais ficar surdo", ela teve vontade de gritar para o garoto. "Agora voc no vai mais ser humilhado pelos seus colegas, vai aprender a ler direitinho e vai poder mostrar a todos o quanto  inteligente."
Com os olhos cheios de lgrimas, ela perguntou a Drake:
	Bem, e o que est pretendendo fazer agora?
	 melhor comear a fazer as malas.
	Malas?  Ela estava muito assustada.
	Exatamente. Quero que faa as suas malas e as do garoto.
	Mas...
	No queira discutir comigo, Olvia. Vou lev-los para casa.
	Eu no quero ir para a sua casa.
	Pelo que estou vendo, voc no tem a menor condio de discutir. Se no quiser fazer as malas, pegue as coisas essenciais e vamos embora. Voc est muito mal e precisa descansar.
A ltima coisa que Olvia lembrava-se do que tinha acontecido no apartamento, era que voltara a se sentar e tivera um acesso de tosse. Depois... Depois lembrava-se vagamente de ter sido erguida nos braos por algum e mais nada.
Quando voltou a abrir os olhos, Olvia no tinha a menor noo de onde se encontrava. Apavorada, tentou se levantar.
	Calma, muita calma.  Aquela era a voz de um homem. Aquela era a voz de...
	Drake!
	Pedi para ficar calma. Felizmente, a sua febre est abaixando. Voc j foi medicada e delirou a noite toda.
	Eu delirei?
	Delirou.
	E acordei voc?
	Eu ainda no dormi. Fiquei tomando conta de voc.
	E onde est o Simon?
	No se preocupe com o garoto. Ele est timo.
	Eu adoro o meu irmozinho.
	Sei disso. Agora tente se acalmar. Quer beber alguma coisa?
	Agua. Eu quero beber gua. Estou morrendo de sede.
Drake foi at uma mesinha, pegou uma jarra e encheu um copo com gua. Depois, ele a ajudou a beber o lquido.
	Quer mais?
	No, obrigada.
	Procure descansar. O mdico disse que voc tem que descansar.
	E o Simon?  ela voltou a perguntar.
	J lhe disse que ele est bem.
	Eu quero v-lo.
	Olvia, no se preocupe com o garoto.
	Mas onde est o meu irmo?  ela comeava a ficar desesperada.
	Ele est dormindo.
	Voc no est mentindo para mim?
	Mas  claro que no estou mentindo. Agora durma.
	Se algo acontecer ao Simon eu nunca vou me perdoar.
	Nada vai acontecer a ele, pode acreditar.
Alguns minutos depois, Olvia voltou a dormir e durante dois dias foi cuidada por um homem de nome Phillips, que a tratava por senhorita. Foi ele quem lhe contou que todos os seus pertences haviam sido empacotados e trazidos para aquela casa.
Por causa da fraqueza, Olvia no conseguia pensar direito na situao que estava vivendo. Mas sabia que, assim que ficasse boa, precisaria cuidar da prpria vida.
Simon, sempre muito afetuoso, passava a maior parte do tempo com ela no quarto. E, encantado com a nova vida, lhe contava que a comida daquela casa era muito gostosa, que Drake havia lhe comprado um Lego e que, todas as noites antes de dormir, ele lhe pedia para que lesse, em voz alta, um dos inmeros livros que havia lhe dado de presente.
"Graas a Deus, finalmente, meu irmo est tendo o que merece", ela sempre pensava agradecida. "E agora tenho certeza de que no corre mais o risco de passar necessidade, nem de ficar surdo."
Numa tarde, quando Drake foi visit-la, como fazia todos os dias, ela disse:
	Preciso lhe agradecer pelo que tem feito pelo Simon. Ele me contou que ganhou um Lego e muitos livros.
	Pensei que fosse brigar comigo.
	Brigar? Por qu? Por que eu brigaria com voc?  ela perguntou, meio desentendida.
	Poderia estar achando que estou mimando o garoto.
	No, voc no  o tipo de homem que compra o afeto dos outros. Os presentes que deu para ele so muito teis.
Drake, que esperava um outro tipo de comentrio, a olhou surpreso.
Os dois ficaram durante um bom tempo em silncio.
	Voc est se sentindo melhor?  ele perguntou.
	Estou, sim.
	Houve um momento que temi pela sua vida.
	E mesmo? Fiquei to mal assim?
	Voc, quando veio para c, estava com uma crise muito forte de bronquite, Olvia.
	Nunca na vida tinha me sentido to mal.
Os dois continuaram conversando e Olvia, apesar de ainda se sentir meio zonza, no notou nenhum tipo de animosidade contra ela. Mas Drake podia estar apenas sendo gentil. Daquele homem, poderia se esperar qualquer coisa.
Na manh seguinte, ela acordou bem melhor e, pela primeira vez, pde apreciar o luxo do quarto onde fora instalada. Depois, devagar, levantou-se e foi ao banheiro.
	Como aqui tudo tambm  luxuoso  ela observou em voz alta. O piso e a banheira so de mrmore e o espelho  de...  Ao ver a sua imagem refletida naquele imenso espelho, interrompeu a frase, e a completou logo em seguida:  ... de cristal.
Olvia estava assustadssima com a imagem que via refletida no espelho.
	Como eu emagreci. E a minha palidez est cadavrica. Pelo jeito, eu estive mesmo muito doente.  Desconsolada, ela balanou a cabea em negativa.  Mas eu estava muito tensa, no tinha dinheiro para me alimentar direito, s podia mesmo acontecer uma coisa dessa.
E, naquele momento, foi inevitvel pensar em Drake.
"Duvido que agora, no estado em que eu estou, ele iria querer me beijar. E tenho que confessar a mim mesma que, apesar do susto e da minha indignao, gostei daquele beijo que ele me deu." Olvia, de leve, passou a mo pelo pescoo. "S fico imaginando como seria pertencer a um homem como ele. Deve ser uma experincia inesquecvel. Mas para Drake, tenho certeza de que no seria muito bom. Afinal, nunca pertenci a homem algum e..."
Ela deu um profundo suspiro e disse baixinho:
	Pare com isso, Olvia. No procure mais problemas para a sua vida. Drake  um homem inconstante. Ser que j se esqueceu o que fez com sua me? Ele a seduziu e depois, mesmo sabendo da gravidez, a abandonou. E at h bem pouco tempo se negava a acreditar que fosse mesmo o pai do Simon. S o exame de DNA foi capaz de convenc-lo. E isso que quer para voc? Ser que j no sofreu muito na vida? Ou ser que quer sofrer mais um pouco?
Olvia, ento, se despiu e foi tomar um banho. Depois, j no quarto, penteou os longos cabelos loiros, ligeiramente ondulados, e se dirigiu para o quarto ao lado, onde encontrou Simon dormindo profundamente.
"Como ele est tranquilo. Parece um anjo."
Ela se aproximou da cama e acariciou a cabea do irmo.
"Dorme, meu amor, dorme. Voc merece descansar. S eu sei o quanto trabalhou para me ajudar a conseguir alguns trocados."
Com lgrimas nos olhos, Olvia saiu do quarto, desceu uma escada e comeou a perambular pela casa.
"Drake herdou da me o gosto pelas belas coisas. A sra. Arundell, apesar de no ser muito rica, tinha muito bom gosto. Coitada, naquele vero, quando Drake foi para Spring
Fiat, ela estava com cncer. E pelo que pude entender, ela continua viva e ganhou a batalha contra a doena."
Ao sentir um cheirinho de caf, Olvia entrou num corredor  esquerda e acabou chegando numa sala ampla onde, enquanto lia o jornal, Drake fazia o desjejum.
	Bom dia  ele disse, assim que a viu.  Como est se sentindo?
	Bom dia, Drake. Eu estou me sentindo bem melhor, obrigada.
Phillips entrou por uma outra porta e ficou espantado ao v-la de p.
	Bom dia, sr. Phillips  ela cumprimentou o empregado, com um sorriso.
	Bom... bom dia, senhorita.
	Obrigada por ter cuidado de mim, sr. Phillips. O senhor  um bom homem.
	Imagine...  o empregado ficou vermelho.
	Sente-se, Olvia. E tome o caf da manh comigo.
	Eu...  Ela se viu tentada a recusar o convite.
	Sente-se  Drake insistiu.
Olvia sentou-e  mesa, e logo Phillips lhe perguntou:
	Em que posso servi-la, senhorita?  No esperando pela resposta, ele continuou:  Vou cozinhar alguns ovos para o sr. Drake, quer que eu cozinhe alguns para a senhorita tambm?
Ela deu um sorriso e respondeu:
	Alguns ovos? Imagine... Se puder me cozinhar apenas um, ficarei imensamente agradecida, sr. Phillips.
	Por favor, senhorita, no me trate por senhor. Me chame apenas de Phillips.
	Eu o chamo de Phillips se comear a me tratar apenas por Olvia.
	Combinado, senhori...  O empregado pigarreou e, em seguida, disse:  Combinado, Olvia.
Olvia se surpreendeu com a fome que sentia naquela manh. Depois do ovo cozido, ela comeu trs fatias de po com requeijo, duas bolachas com gelia de morango e tomou ainda um copo de leite.
Drake, depois que ela havia se sentado  mesa e comeara comer, continuou a leitura do jornal. Em um dado momento, ele disse:
	Hoje voc tem que ir ao mdico.
	Mas eu estou muito bem.
	Mesmo assim, voc precisa ser examinada.  Ele fechou o jornal, colocou-o sobre a mesa e levantou-se.  A propsito: hoje Phillips vai lev-la at ao consultrio, mas temos que resolver o problema de sua locomoo. Voc tem carta de motorista?
" claro que eu tenho. Mas por que ele quer saber se eu tenho carta de motorista? Depois do acidente, perdi a pouca confiana que tinha em mim e acho que nunca mais vou conseguir dirigir um carro."
Vendo que Olvia no respondia  pergunta que lhe fizera, Drake continuou:
Phillips tem muito o que fazer aqui e no pode sempre ficar levando voc para onde queira. Portanto, precisamos lhe providenciar um carro. Se no tiver carteira de motorista, vai ter que tirar uma. Se j tiver a carteira, estou achando que vai precisar treinar um pouco antes de se aventurar pelas ruas. Mas depois a gente volta a conversar sobre isso. Agora preciso ir trabalhar.
Boquiaberta, Olvia ficou olhando Drake sair da sala.

CAPITULO IV

Olvia ainda se encontrava  mesa, quando Simon entrou na sala com um olhar muito brilhante e um sorrisinho nos lbios.
	Estava procurando voc  ele disse.
	E o meu bom-dia?  ela perguntou, abrindo os braos para o irmo.
Simon correu e lhe deu um forte abrao.
	Bom dia, Olvia.
	Bom dia, meu amor, voc dormiu bem?  Ela beijou o rosto do irmo.
	Eu dormi. E tive um monto de sonhos. Eu sonhei que era mais tarde e...
 Como assim?  Olvia o fitou intrigada.  O que est querendo dizer com "sonhei que era mais tarde"?
	Ah, isso...  O garotinho riu. Eu sonhei que era mais velho e que j era grande.
	E mesmo?
	 mesmo. A, eu era grande e j estava na faculdade. A, eu curei um menino que ia ficar surdo.
	Que sonho mais bonito, Simon.
	E voc era a minha enfermeira. Quando eu crescer eu vou ser mdico.
	Desistiu de ser bombeiro?
	Acho que sim.  O garoto sentou-se  mesa.  Mas eu posso ser o que quiser, no posso?
	Pode. Pode, sim, meu gatinho.
	Voc est contente hoje, Olvia  Simon afirmou.
	Estou contente por v-lo to bem.
	Eu tambm estou contente de ver voc de p. Pensei que fosse morrer.  O tom de voz do garoto era muito triste.
	Mas eu no morri. E estou vivinha aqui para ver voc virar um mdico ou, quem sabe, um bombeiro.
	Mas isso ainda vai demorar muito, Olvia.
	Vai mesmo?  Ela riu do jeito do irmo.
	Eu acho que vai. Primeiro eu vou ter que crescer.
	Eu acho timo. E, para isso, voc tem que comer bastante.
No instante seguinte, Phillips entrava na sala.
	Bom dia, Simon.
	Bom dia, Phillips.
	Voc dormiu bem?
	Minha irm me fez a mesma pergunta.
	 mesmo?  o empregado fingiu uma falsa surpresa. 	E o que voc respondeu para ela?
	Respondi que dormi bem.
	Isso  muito bom. O que voc vai querer comer?
	Eu quero daqueles ovos que voc fez ontem para mim 	Simon respondeu de imediato.
	Ovos com bacon.
	 isso mesmo.  Simon, esfregou uma mo na outra.
	E tambm vai querer um copo de leite com achocolatado?
	Vou.
	Certo.  Phillips saiu da sala.
	Ele  muito legal, no ?
	Quem? Phillips?
	E. Mas Drake tambm  muito legal. Ontem ele comeou a me ensinar a jogar damas.  Simon olhou para o lado.  Eu adoro morar aqui.
	Que bom, querido...
	A gente vai voltar para o apartamento, Olvia?
	Eu acho que no.  Aquela foi a melhor resposta que encontrou para dar ao garoto.
Simon, muito entusiasmado, continuou a contar para Olvia os sonhos que havia tido naquela madrugada. Quando Phillips voltou com os ovos e com o leite, o garoto sorriu feliz e comeou a comer.
	Estou muito contente por v-la restabelecida, senhori... Olvia  Phillips comentou.
	Muito obrigada, Phillips. Voc ajudou muito na minha recuperao.
	Imagine...
	Muito obrigada por tudo.
	Quando precisar de mim, Olvia,  s dizer. Estou pronto para ajud-la.
	Eu sei disso. E agradeo muito a sua ateno.
	Vocs precisam de mais alguma coisa?
	No, no precisamos de mais nada.
	Ento, fiquem  vontade.
	Obrigada mais uma vez, Phillips.
O empregado se retirou, e Olvia sorriu ao ver o apetite de Simon.
"Eu nunca o vi comendo desse jeito. Tenho a sensao que meu irmo comea a entender o que  felicidade."
	Voc no vai comer, Olvia?   .
	Eu j tomei o meu caf da manh, querido.
	 J? Como Drake?
	Exatamente.
	Eu gosto do Drake. J contei que ele est me ensinando a jogar damas?
	J contou, sim.
	E eu j contei que depois ele vai me ensinar a jogar xadrez?
	No  ela sorriu , isso voc no me contou.
	Ser que eu posso comer um pozinho?
	Mas  claro que pode.
	Voc passa manteiga nele para mim?
	Com todo prazer.
Depois que o irmo terminou o caf da manh, eles seguiram para os seus respectivos quartos. Antes que o garoto entrasse no dele, Olvia quis saber:
	Voc j arrumou a sua cama?
	No.
	Ento, por favor, v arrum-la.
	Mas Olvia, eu queria lhe mostrar um monto de coisas que tem por aqui.
	Depois voc me mostra esse monto de coisas. Agora, v arrumar a sua cama e no deixe nada fora do lugar.
	Certo. E voc? O que vai fazer?
	Tambm vou arrumar o meu quarto.
Olvia olhava com satisfao a alegria de Simon. O garoto parecia que sempre tinha vivido ali naquela casa.
	Voc gostou do jardim?  ele perguntou.
	Muito. O jardim  muito bonito.
	Agora vou levar voc at a quadra de tnis.  Simon apontou.  Fica por ali.
Instantes depois, o garoto voltava a perguntar:
	A quadra no  o mximo?
	Realmente a quadra  o mximo.
	Drake me disse que, assim que puder, vai me ensinar a jogar tnis. Ele tambm disse que vai me ensinar a nadar.
	Isso  muito bom, Simon.
	Ontem  noite, Drake recebeu visita.
	E mesmo?
	A moa deu um beijo nele.
Apesar de no ter gostado de ouvir aquilo, Olvia tentou disfarar a emoo para si mesma. Porm, segundos mais tarde, se ouviu perguntando:
	E como voc sabe que ele recebeu visitas? Pensei que estivesse dormindo cedo.
	E eu estou. Mas eu ouvi barulho e me levantei. A, quando estava l em cima na escada, eu vi a moa. Drake tambm me viu e me fez uma cara feia.
	 mesmo? E o que aconteceu depois?
	Voltei correndo para a cama.
Olvia resolveu que no queria mais saber daquele assunto. Afinal, Drake tinha uma vida prpria e, com toda certeza, essa vida inclua mulheres, muitas mulheres. Comeou, ento, a contar ao irmo uma histria que ouvia muito quando era criana. Para ela estava sendo muito agradvel permanecer ao sol, num lugar to bonito.
Aps terem almoado, Phillips a levou ao hospital. O mdico, depois de examin-la minuciosamente, disse:
Voc me parece bem, mas tem que tomar muito cuidado. Vai ter que repousar, se alimentar direito e praticar exerccios fsicos. E tenha mais cuidado com a sua sade. O que voc teve foi muito grave, Olvia.
	Eu fiquei sabendo.
O mdico continuou conversando com ela. Ao terminar a consulta, apesar de estar muito constrangida, Olvia no teve coragem de perguntar o quanto deveria lhe pagar.
No elevador, a caminho do estacionamento, ela pensava:
"Pagar com qu? Eu no tenho dinheiro. Mas tambm o mdico no disse nada. Com toda certeza Drake j conversou com ele a esse respeito. E, quando eu puder, pagarei a Drake tudo o que gastou comigo."
J no carro, a caminho de casa, Olvia tentava pensar em coisas prticas.
"Preciso conversar seriamente com Drake. Preciso ter certeza de que Simon estar a salvo do meu padrasto. Deve existir um meio de, judicialmente, mudar a paternidade de Simon."
Assim que desceram em frente  manso, que ficava num local denominado Judge's Bay, o garoto exclamou feliz:
	Olha l o Drake! Ele chegou mais cedo hoje.  Simon correu para encontr-lo. Depois de uma conversa rpida entre os dois, Olvia ouviu o garoto dizer:  Mas  claro que eu quero ir!
Apesar de preferir ficar em casa, Olvia no teve como recusar o convite para ir conhecer o Museu de Tecnologia e Transporte.
Durante a visita, ela comeou a sentir uma forte dor de cabea.
" muita agitao para mim. Gostaria de ter podido ficar em casa. E no  nada fcil ver o quanto as mulheres olham para Drake. Parece que ele tem um im que atrai todas." Ela deu um suspiro e se recomendou: "Acho bom a senhorita parar com isso. Onde j se viu? Ser que est com cime de Drake?"
Aquela pergunta a deixou um tanto confusa. Mesmo assim, muito honesta consigo mesma, teve que concluir:
"E exatamente isso que estou sentindo. Cime. Cime do todo poderoso Drake Arundell. Apesar de ser um grande absurdo, no posso negar os meus sentimentos. E no sei como evitar esse tipo de emoo: ela  muito mais forte do que eu."
Na sada do museu, Drake os convidou para tomarem um lanche. Simon, como era de se esperar, aceitou imediatamente.
	E a primeira vez que eu venho numa lanchonete  o garoto disse, quando j saboreava um sanduche imenso.
	E mesmo?  Drake perguntou, surpreso.
	A gente nunca tinha dinheiro para pagar.
	Sei...
	Mas a Olvia comprava po de hambrguer, carne moda e fazia sanduche para a gente l no apartamento. Ela dizia que ficava muito mais barato. No , Olvia?
	, sim, querido  ela respondeu, meio envergonhada.
	Mas voc tem dinheiro para pagar a conta, no tem, Drake?
	Tenho, pode comer sossegado.
	Depois desse eu posso comer mais um?
	Simon, no seja guloso.
	Eu no sou guloso, Olvia. S estou com muita fome. E queria comer tambm um hambrguer de frango. Um colega meu disse que  uma delcia. 
	Simon, voc pode comer quantos hambrgueres quiser.
	No, Drake...  O menino balanou a cabea de um lado para o outro.  Eu s quero mais um. E eu no vou querer sorvete.
	Acho bom  Olvia comentou.
	No posso comer coisa muito gelada por causa do meu ouvido, Drake.  Simon deu uma mordida no sanduche e continuou:  Sabe, Drake, eu adoro dinossauros.
	Simon, quantas vezes eu j lhe pedi para no falar de boca cheia?
	Eu esqueci.  O garoto terminou de mastigar e, depois, voltou a falar com Drake sobre os dinossauros.
E os dois continuaram conversando como velhos amigos. Quando Simon j comia o hambrguer de carne de frango, Drake lhe disse que tinha sido piloto de Frmula Um.
	Que mximo!  Os olhos do garoto brilharam.  E voc j teve algum acidente?
 Mais ou menos  Drake respondeu de uma maneira grave.
	E voc se machucou?  o garoto quis saber.
	J. Mas no tive nenhum acidente muito grave.
	Pensei que o seu ltimo acidente tivesse sido muito srio. Depois dele, pelo que sei, voc desistiu de correr  Olvia comentou.
	Tive muita sorte, no cheguei a me machucar muito.
	Mas depois dele, voc desistiu de correr.
	O meu ltimo acidente foi apenas um dos motivos para eu deixar a Frmula Um.  Drake pensou um pouco e continuou:  Realmente resolvi desistir quando descobri que estava sendo enganado.
	Por quem?
	Quando comecei a correr assinei um contrato com um homem e acabei ficando preso quele sujeito. O contrato rezava que ele cuidaria de tudo o que eu ganhasse naquele tipo de atividade. Ao descobrir que estava sendo roubado, desistir de correr foi a nica maneira que encontrei para me livrar dele.
	Como foi" assinar um contrato desse tipo?
	Eu era jovem, crdulo, estava muito agradecido a esse homem e jamais poderia imaginar que no mundo existisse um tipo como o dele. Foi uma lio muito difcil mas, tambm, muito boa. Depois daquilo aprendi que no se pode confiar absolutamente em ningum; nem mesmo nas pessoas que aparentemente esto nos ajudando.
Simon, que prestava ateno em tudo o que estava sendo dito, quis saber dos detalhes do acidente. Drake lhe contou o que tinha acontecido.
	Eu ia ficar apavorado!  o garoto comentou, depois de ouvir a narrativa de Drake.
	E  para ficar mesmo; qualquer um ficaria. Mas no podemos deixar que o medo nos impea de fazer aquilo que desejamos.
Assim que entraram na manso, Simon correu para a cozinha. O garoto queria contar a Phillips o que tinha visto no museu. Olvia e Drake tinham ficado na sala.
	Precisamos conversar  ela disse, sem o menor prembulo.
	Certo. Podemos fazer isso amanh? Essa noite vou precisar sair.
	Pode ser, sim, amanh.
Naquela noite, Olvia jantou apenas com o irmo. Aps terem terminado a refeio, o garoto a levou at uma sala onde, alm de dois sofs confortveis, havia um sofistica-dssimo aparelho de som e uma televiso.
Sem a menor hesitao, Simon pegou um CD e uma msica muito bonita invadiu o ambiente.
	Drake disse que voc pode mexer nesse aparelho, querido?  ela perguntou preocupada.
	Ele disse que eu posso fazer o que eu quiser dentro dessa casa.  Simon parecia muito orgulhoso.
Olvia, ento, recostou a cabea no sof e ficou alguns minutos, ausente, de olhos fechados, apenas ouvindo msica.
Ao abrir os olhos, viu Simon deitado no cho, desenhando um carro de corrida.
"At hoje, sempre que tinha oportunidade, ele desenhava dinossauros."
Ao perceber que a irm estava olhando o desenho que fazia, o garoto disse:
	Drake me comprou todas essas canetas.  E indicou uma caixa que se encontrava ao lado do desenho. Em seguida, perguntou:  Voc est se sentindo bem, Olvia?
	Estou. Estou sim, querido.
Aps terminar de fazer o desenho e dizer que iria d-lo de presente a Drake, Simon quis ver televiso.
	Agora no pode, Simon.
	Por qu?
 J passou do seu horrio de dormir. - Mas eu queria ver um pouco de televiso  o garoto insistiu.
	Amanh voc faz isso. Agora, mocinho, vamos para a cama.
E Olvia o levou para o quarto.
O garoto escovou os dentes, vestiu o pijama e foi para a cama.
	Por que voc est olhando para mim desse jeito?  Simon perguntou.
Olvia agachou-se ao lado da cama e respondeu, acariciando a cabea do irmo:
 Porque eu acho voc muito bonito.
	Eu sou mesmo bonito?
	E voc ainda tem alguma dvida?  Ela voltou a acariciar-lhe a cabea.  Mas agora, v se dorme. E sonhe com os anjos.
	Voc sempre diz que  para eu sonhar com os anjos, mas eu nunca sonhei com eles.
Olvia riu do jeito do garoto.
	Mas um dia voc vai sonhar.  Olvia deu-lhe um beijo no rosto.  Tenha uma boa-noite de sono, meu amor.
	Amanh voc vai deixar eu ver televiso?
	Vou, pode ficar tranquilo.
Olvia levantou-se, apagou a luz e foi para o seu quarto. L chegando, vendo que no iria conseguir dormir facilmente, resolveu descer e pegar algumas revistas para ler. Tambm pediria a Phillips que lhe arrumasse um remdio para a dor de cabea que ainda no a abandonara.
Phillips, como sempre, foi muito solcito.
De volta ao quarto, no foi nada fcil para Olvia se concentrar na leitura. O dia havia sido muito cheio e ela, no cansava de relembrar o que tinha acontecido naquele vero h sete anos.
Por volta das dez da noite, ouviu uma leve batida na porta do quarto.
Certa de que era Phillips quem viera ver se precisava de mais alguma coisa, ela pediu que o empregado entrasse. Mas, para sua surpresa, seu visitante noturno era Drake.
	Posso entrar?  ele perguntou ainda da porta.
.    Bem, eu acho que sim.  Olvia apressou-se em se cobrir melhor com o lenol.
Esplndido, usando um smoking impecvel, Drake entrou no quarto. Olvia percebeu que ele no havia fechado a porta.
	Voc no me parece nada bem. Continua com dor de cabea?
	Ah... Phillips lhe contou sobre a minha dor de cabea  ela respondeu, na defensiva.
	Contou, contou, sim. Voc v algum problema no fato de ele ter me contado?
	No.  "Ser que ele veio at aqui s para saber da minha dor de cabea?"
	Bem, voc disse que quer conversar comigo...
	E quero.
	Ento, vamos conversar agora.  Ele pegou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama.
	Tudo bem.  Olvia resolveu ir direto ao assunto.  Quero saber exatamente o que est acontecendo.
	Sobre o qu, exatamente, est se referindo?
	Ao Simon.
	No entendi.  Ele a fitava meio desconfiado.
	Bem, meu irmo deixou de ir  escola e isso est me deixando muito preocupada.
	Ele merece um bom descanso.
	No sei se  hora do meu irmo descansar. Ele est atrasado na escola.
	No vejo o menor problema nisso. Assim que ele fizer a operao, ser o melhor aluno de qualquer classe. Ele  muito inteligente.
	Sempre soube que o Simon  muito inteligente, mesmo assim estou querendo saber quais so seus planos.  Ela deu um profundo suspiro.  Me preocupo muito com o meu irmo. No posso ficar aqui sem fazer nada, enquanto ele no vai  aula e...
	Se quer viver com o Simon,  exatamente o que tem de fazer  ele a interrompeu.
"Ele est me ameaando.  isso que Drake Arundell est fazendo!"
	Sei que voc no me quer aqui.
	No foi voc quem insistiu para que eu me responsabilizasse pelo Simon? E exatamente o que estou fazendo. Mas as coisas no podem ser do jeito que voc imaginou, do jeito que voc determinou. E quanto a morar aqui, essa casa  grande o suficiente para abrigar umas vinte pessoas.
	No quero continuar em dbito com voc, eu...
	Em dbito comigo voc vai sempre ficar. Ainda mais quando eu pagar o que deve ao seu vizinho.
	No quero que pague a minha dvida com o Brett.
No foi por isso que eu o procurei.
	E mesmo?  Drake ironizou.  Como sou um tolo. Pensei que fosse para pagar a sua dvida que tivesse me procurado.
	Mas no foi! E voc sabe disso!  Olvia estava comeando a se alterar.
	Bem, isso agora no tem a menor importncia. J paguei a sua dvida.
	Voc no podia ter feito isso.
	No podia, mas fiz.
	Isso que voc fez, para mim, foi uma grande falta de respeito. Deveria ter falado comigo antes.
	Deveria?  Drake voltou a ironizar.
	Deveria, sim!
	Da prxima vez que fizer uma dvida, falo com voc antes de sald-la.
	No vai existir uma prxima vez.
	A gente nunca sabe, no , Olvia Nicholls?
	No continue ironizando, Drake. Vou pagar tudo o que lhe devo.
	Duvido.
	Vou pagar, sim. At o ltimo centavo.
	Como? Desempregada? Mas  claro que voc no vai me pagar aqueles dois mil dlares. Mas eu tenho uma proposta para lhe fazer.   .
	Proposta?  Olvia o fitou, desconfiada.
	: uma proposta de trabalho. Assim pode pagar o que me deve.
	E que proposta  essa?
	Voc pode se tornar minha amante.
Ao ouvir aquilo, Olvia teve vontade de sair da cama e esbofete-lo. Drake s podia ter enlouquecido. Ningum podia fazer uma proposta daquela como se estivesse falando sobre a coisa mais natural do mundo. Era cinismo demais!
	Voc no deve estar no seu estado normal, Drake Arundell.
	Como ? Vai aceitar a minha proposta.
	Mas  claro que no!
Drake sentou-se na beirada da cama e segurou-lhe o ombro de leve.
	Vou esquecer o que acabou de me dizer, Drake. Voc realmente deve estar estressado.
	No, no quero que esquea a minha proposta, Olvia.
	No estou suportando mais essa situao.
	O que est pretendendo fazer? Fugir?  Ele riu. Talvez esteja pensando em fugir. Afinal, no seria a primeira vez.
Drake, ento, comeou a acariciar-lhe de leve o pescoo.
	Pare com isso!
	Parar? Por qu? Voc no quer que eu pare.
	Mas  claro que eu quero que voc pare.
	No, voc no quer.
	Drake, por favor, no continue!  Olvia tentou afastar-lhe a mo.
	O que  isso, Olvia? No aja como uma menininha desprotegida. Eu desejo voc e sei que voc tambm me deseja.
	Voc est muito enganado.
	No, voc sabe que eu no estou enganado. Posso sentir o seu desejo por mim. Ele  muito grande.
	Estou desconhecendo voc.
	Acontece, mocinha, que voc nunca me conheceu. E sei quando uma mulher se sente atrada por mim.
	Voc  um homem muito arrogante, Drake Arundell. E no passa de um grande convencido!
	Um grande convencido por quem voc morre de desejo.
	Nunca pensei que voc usasse esse tipo de artimanha para seduzir uma mulher.
	Artimanha? Sobre o qu est se referindo?
	Voc est usando de fora, sabia?
	Eu? De maneira alguma. Vejo que todo seu corpo est tremendo. E tenho certeza de que no  de medo. Voc me quer, Olvia Nicholls. Voc sempre me quis.
Drake, de repente, a beijou.
	Afaste-se mim.  Ela tentou empurr-lo.
Mas Drake no prestou a menor ateno quele pedido. Devagar, insinuante, continuou a beij-la.
	Voc  to linda  ele disse com os lbios contra os dela. Voc  uma das mulheres mais bonitas que encontrei em toda a minha vida. Cabelos cor de mel, olhos de um azul belssimo, corpo perfeito, uma verdadeira tentao...
Olvia, paralisada pelo medo e por um tipo de emoo que no era capaz de entender, no tinha a menor ideia de como poderia sair daquela situao. Drake, tomando aquilo como um consentimento, passou a beijar-lhe o pescoo.
	Lindo, delgado, seu pescoo  muito elegante. Voc
tem o pescoo das grandes damas.
Drake, agora, tocava-lhe os seios, protegidos pela camisola de algodo.
	Sempre quis que isso acontecesse conosco.
Olvia, de repente, conseguindo se livrar daquele torpor paralisante em que se encontrava, conseguiu sair da cama.
	V para o inferno, Drake Arundell!
Meio desentendido, ele a fitava.
	Voc no deveria ter feito isso.
	O que foi? Resolveu fazer comigo o mesmo que fez com a minha me?
	No apele, Olvia. Voc est sendo hipcrita. Tenho certeza de que est to excitada quando eu.
	No permito que fale comigo dessa maneira.
	Por que, sem mais nem menos, resolveu se fazer de pura e inocente? Ns dois temos algo que comeamos no passado e at hoje no terminamos.
	Drake, por favor, saia desse quarto. Vou fingir que nada aconteceu.
	Mas aconteceu, Olvia.  Ele ficou de p. Os dois estavam separados pela cama.  E ns dois sabemos que aconteceu.
	No aconteceu nada!  ela quase gritou.
	Aconteceu, sim. Esses beijos, esses carinhos que lhe fiz, serviram para que voc sentisse o quanto o seu desejo por mim  grande.  Ele lanou-lhe um olhar irnico.  Da prxima vez, quando estiver preparada, continuaremos.
	No vai existir uma prxima vez. E eu desprezo voc!
	Claro, mas  claro que voc me despreza! E quem disse o contrrio?  Ele continuava a ironizar.  Mas o seu corpo me quer.
	Bem, voc que pense o que bem entender. Agora, saia do meu quarto. Vou pagar o que lhe devo, mas no dessa maneira srdida que est querendo.
	No, eu no vou sair do seu quarto. Ainda no terminamos a nossa conversa.  Drake voltou a sentar-se.

CAPITULO V

Olvia,   muito   espantada   ficou   olhando para Drake.
	O que mais voc quer? Ser que j no me humilhou bastante por hoje?
	Na minha maneira de enxergar a situao, eu no a humilhei.
	Pois humilhou. Humilhou bastante.
	Isso no vem ao caso.
	Como no vem ao caso? Acha que pode ir entrando assim no meu quarto e me tratar como se eu fosse uma qualquer?
	No tratei voc como se fosse uma qualquer. E no quero mais continuar falando sobre esse assunto. Aceito o fato de no querer se tornar minha amante. Pelo menos, por enquanto.
"No acredito! Drake age como um dspota, como se o mundo lhe pertencesse."
	Bem, voc disse que queria saber sobre os meus planos.
	Disse. E continuo querendo saber quais so eles.
	Quanto a Simon, ele vai ficar aqui comigo.
	Mas...
	Quanto a isso a minha posio no vai mudar: minha posio  inegocivel. Ele vai morar aqui comigo.
	Mas eu criei esse menino.
	No precisa me dizer isso.
	Simon est acostumado comigo, no podemos nos separar.
	No quero que se separe dele. Quero que comece a cursar uma faculdade. Voc queria se formar, no queria?
	Voc sabe que sim.
	Pois, ento. Se concordar em continuar fazendo o papel de me do garoto, eu pago a faculdade para voc.
	E eu retribuo tanta gentileza com favores sexuais. E isso?  Ela balanou a cabea de um lado para o outro.  Nem pense numa coisa dessa!
	No estou pensando em nada semelhante, Olvia Nicholls. Sei que desistiu da sua prpria vida quando resolveu cuidar do Simon. Portanto, estou lhe oferecendo uma outra chance.
	E  claro que, se eu aceitar essa chance, voc vai me impor condies.
	Quanto a isso, no tenha a menor dvida. E vou lhe dizer quais so elas: voc fica aqui, continua fazendo o papel de me dele, cursa uma faculdade, s que jamais dir a ningum a origem do garoto. Simon continua precisando da sua presena. Voc  nica imagem real de me que ele tem.
	Como voc sabe disso? Falou com Simon sobre a minha me?
	Falei. E voc fez um excelente trabalho. O garoto acha que Elizabeth foi uma santa.  Mais uma vez, Olvia viu um sorriso irnico aflorar nos lbios dele.; Mas por mim, tudo bem... Simon, na realidade, tem de Elizabeth uma imagem muito nebulosa.
	No estou entendendo onde voc quer chegar.
	Mas vai entender: para todos os efeitos, voc  a me do garoto. Em troca, vai assinar um contrato.
	Um contrato?
	Exatamente, um contrato.
	E que contrato  esse?
	No contrato constar que, at atingir a idade de cursar o segundo grau, voc no vai se casar.
	Por que isso?
	Porque quero o mnimo de estabilidade emocional para o garoto. Sou um homem que viaja muito e preciso sab-lo sempre bem. Phillips  um bom homem mas, por mais que se esforce, nunca substituir voc na vida do garoto. Tenho vrios empregados aqui nesta casa e quero mais um: voc. Sua nica funo ser cuidar do garoto.
	Minha funo ser s essa mesmo?
	Pode ter certeza de que sim.
	E voc no vai me molestar mais?
	No, no vou.
	Ento, eu concordo com a sua proposta. Tambm quero que Simon continue equilibrado emocionalmente.
Drake se levantou e estendeu-lhe a mo, como se tivesse acabado de fazer um acordo comercial.
	Continuarei sendo a me de Simon.  Ela apertou-lhe a mo.
	O que  isso?  Ele virou-lhe a palma das mos.
	Calos  Olvia respondeu, apenas.
	Calos?  Ele a fitou espantado.  E como conseguiu esses calos?
	Trabalhando.
	Trabalhando...  Drake continuava segurando-lhe a mo.
	Foi com o uso da tesoura que obtive esses calos.
	E voc trabalhava numa fbrica?
	Trabalhava para uma fbrica, mas o servio era feito em casa.
	E por quanto tempo trabalhou como costureira?  Ele soltou-lhe a mo.
	Trs anos. Quando Simon e eu chegamos aqui em Auckland, arrumei esse servio. E s parei um pouco antes de me comunicar com voc. 
	E como foi que aquela mocinha mimada e inconsequente conseguiu trabalhar to arduamente?
	Eu nunca fui inconsequente.
	Talvez eu tenha dito uma grande besteira, me desculpe.
"Drake, me pedindo desculpa? O que ser que deu nele?"
	Mesmo assim, voc poderia ter pedido ajuda a algum rgo assistencial do governo.
	De jeito nenhum, eu no podia fazer isso.
	Por qu?
	Se procurasse ajuda em algum rgo pblico, meu nome fatalmente, iria para o computador. E ficaria muito fcil descobrir que Simon no era meu filho. Da, seria um passo para tirarem meu irmo de mim. E, com toda certeza, entrariam em contato com o meu padrasto. No podia me arriscar.
	Tenho certeza de que jamais entregariam o garoto ao seu padrasto. Era s contar a verdade.
	E quem disse que iriam acreditar em mim? Se entrassem em contato com o meu padrasto, veriam que Simon poderia ter uma vida bem mais confortvel com ele. No podia dar conforto ao meu irmo, mas podia lhe dar amor.
	Quanto a isso eu no tenho a menor crtica a lhe fazer. Simon, apesar do problema nos ouvidos,  uma criana bem estruturada emocionalmente.
	Isso  um elogio, sr. Arundell?
	Claro que  um elogio. Se no tivesse certeza de que voc  uma boa pessoa para o garoto, no a deixaria continuar junto a ele.  Drake pensou um pouco e perguntou:  O que a leva a pensar que o seu padrasto iria querer o garoto? Pelo que me lembro, ele no  o tipo de homem que gostaria ver crescer bem diante dos seus olhos o fruto de uma traio.
	Simon foi registrado no nome dele.
	Eu sei disso. S no consigo entender por que ele resolveu tomar tal atitude.
	Para punir a minha me. Assim, tinha poder sobre ela e o meu irmo. Brian sempre adorou se sentir poderoso.
	Talvez seu padrasto s quisesse um filho. Ele nunca entrou em contato com a filha que teve no primeiro casamento?
	No. Nem com a filha, nem com a ex-mulher. E mesmo que estivesse querendo um filho, ele agiu de maneira implacvel com a minha me. E, acredite em mim, Brian odeia o meu irmo.
Como no queria mais continuar falando sobre o homem que mais detestava no mundo, Olvia resolveu perguntar:
	Drake, pelo que pude entender, a sua me continua viva.
	Continua, sim  ele respondeu, aps uma breve hesitao.
	Que timo! Isso me deixa muito feliz. No tinha certeza de que tinha conseguido sobreviver. Naquele vero ela estava muito doente. Onde est sua me agora?
	No Canad.  Virando-se, Drake se encaminhou para a porta.  Amanh Phillips vai lev-la at um shopping. Voc e o garoto esto precisando de roupas novas.
Ao ouvir aquilo, Olvia, automaticamente, balanou a cabea em negativa.
	Darei um jantar aqui sbado  noite.
	Eu no posso...
	Pode, sim.  Ele a interrompeu.
	Mas, Drake, eu...
	Voc estar presente no jantar, sim.  Ele voltou a interromp-la.  No quero que fique trancada dentro do quarto.
	Eu no posso fazer isso, no posso participar desse jantar.
	No pode? Por qu?
	Se comear a me expor, mais ou cedo ou mais tarde, meu padrasto vai acabar sabendo onde eu estou.
	Quero que esse homem v para o inferno!  Drake estava ficando muito nervoso com aquela conversa.  Quero que ele v para o inferno, que  o lugar onde deveria estar h muito tempo.
	Drake, entenda a minha situao.
	Eu no tenho nada para entender, Olvia. Se no me apresentar amanh  noite um belssimo vestido de festa, vou sair com voc e pode acreditar: voltaremos com o vestido. E, no sbado, vai us-lo, nem que para isso eu precise amarr-la.
	Voc no vai precisar chegar a esse extremo.  Ela afirmou, ao ver que Drake no estava para brincadeiras.
 Vou comprar o vestido e o usarei no sbado  noite. Agora, por favor, v embora. Estou muito cansada.
	Tambm quero que faa um corte de cabelo. Durma bem.  Sem dizer mais uma s palavra, ele passou pela porta que deixara aberta e foi embora.
Transtornada, Olvia fechou a porta e voltou a se deitar.
"Vou pagar a Drake cada centavo que devo a ele. No sei como, mas vou pagar. E s me resta aceitar a proposta que ele me fez: depois de frequentar uma faculdade, ser muito mais fcil encontrar um bom emprego."
Olvia ajeitou o travesseiro, tentou dormir, mas os pensamentos a impediam de conciliar o sono.
"Vou mesmo precisar ocupar a minha mente com alguma coisa, alm de cuidar do Simon. E nada melhor do que estudar.
Formada, a, sim, terei chance de saldar a minha dvida com Drake. Alm do mais, no terei muito tempo para pensar na atrao que sinto pelo homem que seduziu, engravidou e depois abandonou a minha me." Ela deu um profundo suspiro. "Porque essa  a mais pura verdade: continuo, infelizmente, me sentindo muito atrada por Drake."
Olvia continuou pensando muito. De repente, ela se assustou com os prprios pensamentos.
"Ser? Ser que foi isso mesmo o que aconteceu? Ser que fiquei usando Simon como um escudo para que os homens no se aproximassem de mim? E agora... Meu Deus, como estou confusa. Ser que passei esses anos todos apaixonada por Drake? S pode ser isso. Afmal, ele foi o primeiro e nico homem por quem me apaixonei. Se eu houvesse me relacionado com outros, na certa, eu teria esquecido o que aconteceu conosco naquele vero."
Olvia, apavorada com que havia concludo, s conseguiu dormir muito mais tarde. Mesmo assim, foi um sonho agitado, cheio de sonhos e pesadelos.
Na manh seguinte, ela acordou bem mais cansada do que quando tinha ido dormir. Depois de um banho rpido, vestiu-se e foi para o quarto do irmo.
	Bom dia  ela disse ao garoto, que ainda estava na cama.
	Bom dia, Olvia. Voc no dormiu bem?
	Voc  um garoto muito perspicaz, sabia?
	O que significa isso?
	Significa que voc  muito observador, que presta ateno no que acontece ao seu redor.
	E sou mesmo. Voc est com olheiras.
	Eu vi.
	Voc ainda est tomando remdio, Olvia?
	Estou, sim querido.
	No quero que voc morra.
	Eu no vou morrer.  Ela sentou-se na beirada da cama.  Agora, levante-se e v tomar um banho bem gostoso.
	Certo.  Simon levantou-se e, cinco minutos mais tarde, voltava para o quarto, enrolado numa toalha.
	No esqueceu de escovar os dentes?  ela quis saber.
	No, eu escovei os meus dentes direitinho.
	Isso  muito bom.
Simon abriu uma gaveta e pegou uma cala jeans, bem simples, que ela havia comprado em uma liquidao.
	Acho melhor voc usar aquela outra cala que eu lhe comprei.
	Qual? A que tem um cavalo no bolso da frente?
	Exatamente.
	Mas eu prefiro essa.
	Essa j est muito surrada.
	Mesmo assim, eu gosto mais dessa.
	Simon, eu...
	Bom dia  Olvia foi interrompida por Phillips que entrava no quarto.
	Bom dia  os dois responderam em unssono.
	O caf da manh est pronto.
	Obrigada, Phillips. J, j estamos descendo.
	Eu os aguardo l embaixo.
S quando Phillips saiu do quarto, Olvia percebeu que, rapidamente, Simon tinha vestido a cala que ele queria.
	Voc  mesmo muito teimoso, garoto.
	Mas eu gosto muito mais desta cala.
	Acho que sei de quem voc herdou essa teimosia.
No prestando a menor ateno nas ltimas palavras de Olvia, o garoto vestiu uma camiseta de mangas compridas.
	Dessa camiseta voc gosta.
	Gosto.
	Eu sabia!  Ele correu para abra-la.
	Vou pr o tnis novo que o Drake me deu.
	Tudo bem, mas apresse-se, Phillips est l embaixo nos esperando.
J  mesa, foi muito difcil para Olvia convencer o irmo de que ele no devia comer ovos com bacon.
	Mas eu adoro essa comida.
	Voc pode adorar essa comida, Simon, mas ela no  nada saudvel. Quero que coma frutas, cereais e tome leite.
	E os ovos com bacon?  ele insistiu.
	Isso voc s vai poder comer muito de vez em quando. E isso  pouco ou  muito?  Ele a fitava meio confuso.
 No entendi direito o que voc disse.
	No entendeu, ou no me ouviu?
	No entendi: voc disse que s vou comer ovos com bacon muito de vez em quando.
	Com isso, Simon, estou querendo dizer que voc s vai comer ovos com bacon raramente.
	No gostei de ouvir isso.
	Mas  o que vai acontecer.
Drake, com os jornais diante de si, parecia no prestar a menor ateno na conversa.
Simon, que no havia gostado nada da deciso da irm, se manteve emburrado durante todo o caf da manh. Quando terminou de comer, resolveu ir para a sala de som e vdeo para continuar desenhando.
Drake, ento, disse:
	Quero que saiba de uma coisa.
	E o que ?
	Agora o seu padrasto est morando na Austrlia. E, tenho certeza, que ele s vai ficar sabendo que voc voltou a aparecer, depois que meu advogado j tiver com tudo pronto para solucionarmos a situao que vivemos.
	Espero, de todo corao, que isso acontea logo.
No shopping, Olvia estava assustada com a quantidade de roupas que Phillips queria comprar para Simon.
 No, ele no precisa de tudo isso. Alm do mais, Phillips, Simon est crescendo e vai acabar perdendo as roupas logo.
	Mas ontem  noite, liguei para uma conhecida minha que tem um filho nesta idade e ela me ditou vrios itens que o Simon vai precisar.  Ele lhe estendeu a lista. Depois de l-la, Olvia disse:
	De jeito nenhum!  roupa demais. Simon precisa bem menos que isso.
	Mas Olvia...  Phillips estava preocupado.
	Eu agradeo o seu interesse, mas tanta roupa assim daria para umas quatro crianas.
	Bem, eu tenho ordem para comprar o que for necessrio.
	 ns compraremos o que for necessrio.  Olvia sorriu-lhe de maneira amistosa.  Quanto a isso, no precisa se preocupar.
Depois de ter comprado as roupas do irmo, Olvia estava se sentindo mortificada.
"Gastei bem mais do que era necessrio."
	Agora quero que entre naquela loja ali.  Phillips apontou.   a mais sofisticada desse shopping.
Aps ter examinado as roupas que se encontravam na vitrine da loja indicada por Phillips, e o seus respectivos preos, ela disse:
	Sinto muito, Phillips, apesar de lindas, as roupas no so exatamente o que estou querendo.
	Mas...
	Pode ficar tranquilo. Vamos at uma loja onde venda tecido. Eu mesma vou confeccionar o meu vestido.
	Olvia, Drake me disse que...
	Imagino exatamente o que ele deve ter lhe dito.  Ela o interrompeu.  Mas tudo o que Drake quer  que eu me apresente bem. E posso fazer um vestido bem lindo, por um dcimo do preo.
	Bem, ento vamos at uma loja que venda tecido. Noandar debaixo h uma muito boa.
Na loja, Olvia escolheu um veludo de seda, no tom exato dos seus olhos.
	Que tal? Gostou da minha compra?  ela perguntou, quando j saam do estabelecimento.
	O tecido  lindo, Olvia. Mas agora precisamos comprar outras coisas para voc.
	No estou precisando de mais nada, Phillips.
	Mas o Drake pediu que eu...
	Deixe o Drake comigo  ela voltou a interromp-lo.  No sou mulher de gastar mais do que o necessrio.
	Olvia, entenda a minha situao: se chegarmos em casa sem um enxoval completo para voc e para Simon, Drake vai ficar furioso. A, terei que voltar aqui para fazer as compras.
	Ele  tirano desse jeito?
	Bem, s vezes ele se torna um homem muito difcil.
Ainda mais quando as ordens dele no so cumpridas.
	Se  assim, vou voltar na loja de tecido e comprar mais alguns cortes. S que, desta vez, eu pago por aquilo que comprar.
	E para Simon? Acho bom comprarmos mais algumas coisinhas.
No, o que compramos para o Simon  bem mais do que o suficiente. Mas antes de voltarmos  loja, deixa eu dar uma olhadinha naquela vitrine ali.
Na vitrine, sapatos sofisticadssimos estavam expostos.
	Voc vai precisar de um par de sapatos  Phillips comentou.
	Vou, sim.
	S que os sapatos eu vou querer pagar. Ou melhor: Drake vai querer pagar. Afinal, o dinheiro  dele.
	Tudo bem.  Olvia concordou, mas sabia que iria computar mais aqueles sapatos no montante que devia a Drake.  Mas me diga, onde conheceu o Drake?
	Numa ilha do Pacfico.
	Um dia, ainda, vou passar umas frias numa ilha dessa.
	S que quando conheci o Drake, ele no estava em frias.
	No?  ela perguntou espantada.
	No, Drake estava trabalhando. Ele trabalha muito, no pra um s instante. Drake praticamente salvou a minha vida. Naquela ilha, se uma pessoa se mantm afastada das mulheres e do jogo de azar, consegue ganhar muito dinheiro em pouco tempo.
	E voc no ganhou dinheiro?
	Ganhei, mas perdi tudo no jogo. Eu era compulsivo: perdia tudo que ganhava. Mas Drake me ajudou e, finalmente, me livrei do vcio.
	Mas voc tambm deve essa cura a sua fora de vontade.
	 verdade, mas se Drake no tivesse acreditado em mim, se ele no tivesse me ajudado de verdade, no sei o que teria acontecido com a minha vida. Drake era muito respeitado por l: sempre foi muito honesto, muito correto. Mas tambm  incapaz de esquecer quando tentam pass-lo para trs.
Olvia deu um profundo suspiro.
	Voc est cansada?
	Um pouco. Vou querer aquele sapato preto.  Ela indicou o sapato a Philips.
	Ele  lindo.
Depois de terem comprado o sapato, os dois voltaram para a loja de tecidos.
	Voc tem muito bom gosto, Olvia  Phillips comentou, quando j estavam prximos ao salo de cabeleireiro que ficava no ltimo andar do shopping.
	Muito obrigada.
	Tenho certeza que far lindas roupas com os cortes que voc comprou.  Ele parou.  Pronto,  aqui.
	Bem, enquanto corto o cabelo, gostaria que fosse dar uma olhada no Simon. Ele adorou o parquinho de diverses que fica no trreo, mas pode estar se sentindo abandonado.
Faz tempo que ns o deixamos l.
	Pode ficar tranquila. Vou at l.
	Quando terminar aqui no cabeleireiro, vou direto para o parquinho.
	Combinado.  Phillips se afastou.
Dez minutos mais tarde, Olvia via o seu cabelo ser cortado. "Ser? Ser que vai ficar bom?", ela se perguntava preocupada. "Faz tanto tempo que no corto os meus cabelos." Um pouco mais tarde, feliz, ela sorria para o espelho. "Ficou bem melhor do que eu poderia imaginar."
Durante o jantar, ignorando-lhe totalmente o novo corte de cabelo, Drake lhe perguntou:
	Comprou o vestido que vai usar no sbado  noite?
	Estou surpresa que ainda no tenha feito essa per gunta ao Phillips.
	E por que deveria ter feito essa pergunta a ele? Esse assunto s compete a mim e a voc. Mas me diga: comprou ou no o vestido.
	Pode ficar tranquilo: sbado  noite no irei envergonh-lo.
	Isso  muito bom. E o que mais comprou para voc?
	Mais algumas coisinhas.
	Ento, termine logo o seu jantar.
	Por qu?
	Porque vamos dar uma sada e acrescentar mais algumas coisinhas a essas que voc j comprou.
	Eu no vou a lugar algum.
	Vai, vai, sim, senhora!
	Voc no manda em mim.
	Com toda certeza eu no mando em voc. Mas assumiu um compromisso comigo e vai ter de cumpri-lo! Quero que compre um enxoval completo. Vestidos, calas compridas, roupas de baixo, camisolas... Um enxoval completo!
	Voc conversou com Phillips.
	No, eu no conversei com Phillips, mas conheo voc, Olvia Nicholls.
	Por que esto brigando?  Simon perguntou, com uma voz chorosa.
	Ns no estamos brigando, querido  ela respondeu, tentando tranquilizar o garoto.
	No minta para mim, Olvia. Vocs dois esto brigando. E eu no gosto disso.
	No estamos brigando, Simon  Drake assegurou.  S estamos discutindo pontos de vista diferentes.
	Mas eu no gosto.  s falar com bons modos. A Olvia sempre me ensinou que a gente no deve gritar com os outros. E voc estava gritando com ela, Drake.
	Tudo bem, a gente no vai mais falar alto.  Drake olhou para ela.  Certo, Olvia?
	Certo.
	Eu posso ir ver televiso, agora?
	Pode, mas antes v escovar os dentes.
	Tudo bem.  Chateado, Simon levantou-se e se afastou.
	No quero que controle a minha vida, Drake.
	Eu no estou controlando a sua vida.
	No pode me dizer o que devo ou no comprar.
	Eu insisto que compre tudo o que precise.
Ela pensou um pouco e respondeu:
	Amanh eu saio de novo e compro tudo o que preciso.
	Tudo mesmo?
	Tudo.
	Voc mudou muito  ele comentou.
	Mudei?
	Mudou. Antes voc no concordava com tudo assim to facilmente.  Ele deu um sorriso tmido.  Bem, na verdade, no concordou assim to rapidamente com a compra desse enxoval. At que resistiu bastante. Mas voc, quando adolescente, era bem mais orgulhosa e muito, muito mimada. Achava-se bem melhor do que qualquer pessoa.
Apesar de querer, Olvia no tinha como negar aquilo. Na adolescncia tinha sido, sim, uma garota muito mimada e egosta.
	Foi por causa do meu comportamento infantil no passado que resolveu me fazer aquela proposta ontem  noite?
	No, de jeito algum. Voc vai continuar sendo para sempre
a filha do patro e eu, o filho de um simples escriturrio.
	Pare com isso, Drake. J conseguiu me humilhar bem mais do que eu merecia.
	Nunca tentei humilhar voc.
	No? E aquilo que aconteceu ontem  noite? No sou nem sombra da adolescente que fui. Tenho certeza de que, quando me viu, demorou a acreditar que estivesse diante da filha do patro.
	Voc continua muito linda e desejvel, Olvia.
	E acha que eu no me olho no espelho? E ainda depois dessa doena, fiquei com uma pssima aparncia.
	Pode acreditar em mim: voc est muito bonita.  Ele se levantou.  Tenho que fazer alguns telefonemas. Amanh, ento, voc vai fazer as compras?
	Vou.
	No tente me tapear  ele disse, desconfiado.  Amanh no estarei aqui. Vou viajar.
	Pode acreditar, comprarei tudo de que necessito.
No dia seguinte, para evitar maiores complicaes, Olvia resolveu voltar ao shopping e renovar todo o seu guarda-roupa.
Na sexta-feira feira  noite, Drake chegou de viagem e a encontrou num quarto, sentada  mquina de costura.
	O que voc est fazendo?
	Costurando.
	O qu? O que voc est costurando?
	O vestido que usarei amanh.
	Voc me prometeu que renovaria o seu guarda-roupa.
	E cumpri o que lhe prometi. Mas o vestido que usarei amanh est sendo feito por mim. E disso eu no abro mo.
	No quero que, por causa da roupa, apresente-se de maneira inadequada.
	Se esse  o seu medo, pode se tranquilizar. Sou tima costureira!

CAPITULO VI

No sbado  noite, Olvia olhava para o vestido que estava sobre a cama.
	Ficou lindo!  ela disse, com muito orgulho.  Sou mesmo uma tima costureira.
Com cuidado, ela pegou a roupa e vestiu. Feliz, aproximou-se do espelho e se espantou com o que viu.
"E incrvel o que uns dias de descanso, boa alimentao e um pouco de paz fizeram por mim. Como um passe de mgica, estou muito parecida com a adolescente que fui. Mas esta paz eu s consigo sentir quando estou longe de Drake. Quando ele chega, me sinto deprimida, apreensiva e muito triste. E isso tudo se deve ao que comecei a sentir por ele, depois que esteve l no meu quarto com aquela proposta indecente. No sei o que se passa na minha cabea, mas tenho muita vontade de abra-lo, de cobri-lo de beijos... Sei que  loucura, mas  exatamente isso que tenho vontade de fazer."
De repente, Olvia lembrou-se de Simon, que era o fruto de uma relao proibida.
"E essa relao, de uma certa maneira, acabou causando a morte da minha me..."
Esforando-se para no pensar em mais nada, Olvia retocou a maquilagem e ajeitou os cabelos.
Uma breve batida na porta anunciou a chegada de Drake.
	Entre  ela disse.
	Voc est pronta?  Drake perguntou logo que abriu a porta. Em seguida, se calou. Parado, ele a ficou observando. E Olvia sentiu que ele percorria, com o olhar, centmetro por centmetro do seu corpo escultural. E aquele silncio a deixou profundamente constrangida, abalada. Mas no deixaria que Drake percebesse o que acontecia no mais ntimo do seu ser.
	E ento? Gostou?  ela resolveu perguntar.
	Voc est muito charmosa.
	Voc tambm est muito charmoso nesse smoking. Mas me diga: o que achou do vestido?
	Surpreendente. No deve nada aos melhores costureiros daqui. No imaginei que voc costurasse to bem.
	Eu adoro criar. No gosto muito de trabalhos repetitivos, como quase sempre fazia quando trabalhava para a fbrica.
	E a cor do vestido tambm  muito bonita.
	Obrigada.
	E o garoto?  ele quis saber.
	Simon j est dormindo. Foi difcil convenc-lo de que no jantar s participariam adultos.
	Bem, vamos descer? Alguns dos convidados j chegaram.
Apreensiva, Olvia saiu do quarto na companhia de Drake. Ao chegarem na sala, os presentes a fitaram com curiosidade. Tentando mostrar-se impassvel e muito cordial ela, durante o jantar, fez de tudo para se mostrar  vontade.
Das pessoas que se encontravam presente, Olvia gostou muito de Aura Jensen e do marido, Flint.
"Tenho certeza de que todos os que esto aqui no fazem a mnima ideia do que foi a minha vida nos ltimos anos. E essas pessoas tambm no fazem ideia do que  trabalhar duro para poder pagar o aluguel, para ter o que comer. So, pelo jeito, todos muito ricos e sem nenhuma espcie de problema financeiro. Acho que todos no mundo precisariam passar por um pouco de privao para valorizarem o que tm. A vida, para muita gente,  fcil demais. Acham que a pobreza  necessria e no esto dispostos a abrirem mo de absolutamente nada para amenizar o sofrimento e a penria dos outros", Olvia pensava, quando j estavam saboreando a sobremesa. "Cansei de ver pais e mes de famlia chorando pelo futuro incerto de seus filhos. E pensar que existem pases onde a situao  bem pior que a desse. E pensar que existem guerras, onde crianas morrem de inanio. Esse mundo  mesmo muito injusto."
Naquele momento, apesar de estar sendo tratada muito bem, Olvia se sentiu uma aliengena.
"Imagine, todos falando de negcios, poesia, cinema... E eu, aqui, preocupada com a populao do mundo. Mas acontece que vivi uma realidade que ningum aqui sequer supe que exista. Antes de fugir de casa, tambm pensava que o mundo tinha sido feito para mim e que poderia desfrutar dele como bem entendesse. E hoje... Hoje s quero acabar de criar o meu irmo e quero estudar muito. Se conseguir mesmo fazer advocacia, pretendo me dedicar de corpo e alma aos mais necessitados."
Quando os convidados terminaram o jantar, Drake os convidou para irem danar e conversar um pouco num salo, que ficava numa outra ala da casa.
E o resto da noite teria sido maravilhoso para Olvia, se no fosse a presena de uma loira muito bonita, chamada Sarah Beale. Apesar de ser muito discreta, Olvia sentia que aquela era a moa a qual Simon havia se referido.
"Estou quase certa de que foi ela mesma que o meu irmo viu Drake beijar. E ela  mesmo belssima. Durante as apresentaes, Sarah me tratou muito bem, mas fez questo de manter um certo distanciamento de mim." Olvia deu um profundo suspiro. "Mas o que pude constatar  que, de uma maneira ou de outra, todas as mulheres se sentem atradas por Drake. Ele passa uma fora, um vigor fsico, um charme, que nenhuma delas consegue ficar imune. E os homens, por sua vez, o tratam com muito respeito e admirao."
	Viu s?  Aura Jensen perguntou, ao se aproximar de Olvia.  Aqueles dois parecem que no se vem h sculos. Esto conversando h mais de meia hora.
Aura se referia ao marido e a Drake que, sentados num sof de dois lugares, conversavam animadamente.
	Seu marido ainda no danou com voc  Olvia comentou.
	E nem vai danar, minha querida. Quando encontra algum para trocar algumas ideias, Flint se esquece do mundo.
As duas continuaram conversando.
	Que tal a gente sair um dia para almoarmos juntas?  Aura sugeriu.
	Acho uma excelente ideia  Olvia respondeu de maneira espontnea.
	Ento, um dia desses, eu ligo para voc.
As duas foram interrompidas por Sarah que, finalmente, parecia ter resolvido conversar um pouco com Olvia.
	Por quanto tempo voc pretende ficar em Auckland, Olvia?  a loira perguntou.
	Ela est pretendendo cursar uma faculdade aqui.  A resposta tinha sido dada por Drake.
"Mas como foi que ele chegou at aqui? Ainda h pouco, Drake estava conversando com Flint... Tenho certeza de que, quando percebeu que a inteno de Sarah era conversar comigo, ele correu para c."
	Quer dizer, ento, que est pretendendo cursar uma faculdade aqui em Auckland  Sarah comentou com extrema simpatia.
	Estou, sim.
	E o que est pretendendo estudar?
	Advocacia.
	E uma bonita carreira.  Sarah sorriu.
	Eu tambm acho.
	Mas Olvia tem ainda um bom tempo para decidir se faz mesmo advocacia. Nesse ano no  possvel para ela frequentar a faculdade  Drake disse.
A conversa entre eles tomou um outro rumo, mas Olvia teve certeza de que o comentrio de Drake, fora a maneira que havia encontrado para deixar claro a todos que ela permaneceria naquela casa.
Quando os convidados j tinham ido embora, Olvia resolveu recolher os copos e as xcaras de caf que haviam ficado espalhadas pelo salo.
	Eu fao isso, Olvia  Phillips disse, ao entrar no salo.
	Quero ajudar voc.
	De jeito nenhum. Uma princesa no pode se dar ao luxo de ficar recolhendo copos e xcaras.
	Uma princesa?  Ela o fitou sorrindo.
	Bem, pelo menos foi isso que Drake disse.
	Ele disse a voc para no me deixar recolher as xcaras e os copos?
	No, no foi isso o que aconteceu.
	Ento, o que foi que aconteceu?
	Bem, quando Drake me procurou para servir o caf, ele me disse que voc estava parecendo uma princesa.
	Ele disse isso?
	Disse. E ficou muito entusiasmado com a sua habilidade.
	Bem, princesa ou no, vou ajud-lo a recolher as xcaras e os copos.
	Olvia, voc no deveria fazer isso.
J  muito tarde, Phillips e voc tambm precisa descansar. Dez minutos mais tarde, o salo estava praticamente em ordem.
	Acho bom voc ir para a cama, Phillips. J trabalhou muito por hoje  Drake disse, ao entrar no salo.
	 exatamente o que eu vou fazer. Vejo vocs no caf da manh. A que horas quer que ele seja servido?
	Amanh, Phillips,  domingo e o seu dia de folga.
	Mas s tenho compromisso s dez. Posso muito bem servir o caf da manh.
	Est bem, eu concordo. Mas com uma condio.
	E que condio  essa?
	Quero que tome o caf da manh conosco.
	Combinado.  Phillips sorriu, satisfeito.  Tenham uma boa-noite.
Olvia, que at aquele momento estivera de costas para a porta, olhando uma pequena escultura que se encontrava sobre um mvel, sentiu que Drake se aproximava.
	Gostou da escultura?  ele perguntou.
	Muito.
	Comprei numa viagem que fiz ao interior da Inglaterra.
	Sempre gostei muito de escultura.  Por no saber mais o que dizer, Olvia ficou em silncio.
	O que achou do jantar?
	Foi muito agradvel. Seus amigos me parecem pessoas muito interessantes.
	E eles so, sim.
Olvia voltou a ficar em silncio.
	Posso saber em qu voc est pensando?
	Na minha presena aqui na sua casa.
	No entendi.
	Acho que ela vai atrapalhar voc, caso esteja pensando em casamento.
	Isso  bobagem, Olvia.
	No, eu no acho que seja bobagem.
	Pode ficar tranquila, a possibilidade de vir a me casar nem passa pela minha cabea.
	Bem, se  assim...
	E exatamente assim.
	Mas, se por acaso, vier a se apaixonar, quero que me comunique.
	Para qu?
	Para eu ir embora. Tenho de certeza que sua esposa no iria querer que eu permanecesse por perto.
	Minha esposa...  Ele balanou a cabea em negativa.  No acredito no que estou ouvindo. Sua imaginao vai longe demais, Olvia Nicholls.
	Mas isso pode se tornar realidade.
	Acontece, que essa suposta esposa que voc acabou de aludir, pode tambm no querer o Simon por perto. Ser que pensou nisso tambm?
	Mas  claro que pensei. Mas se eu for embora daqui, levo o Simon comigo.
	Isso  muito engraado! E quem vai sustent-la? Eu?
	Ser por pouco tempo. Depois, como j lhe disse, vou lhe devolver cada centavo que me emprestou. E a, sou eu quem vai sustentar o Simon.
	Olvia, acho melhor voc ir dormir  ele disse pausadamente e, em seguida, a deixou sozinha.
Os dias que se seguiram, no foram nada fceis para Olvia. Uma sensao de perda, de desespero, no a abandonava um segundo sequer.
Porm, apesar de tanta apreenso, era muito bom ver a mudana que havia acontecido com Simon. O garoto estava muito mais alegre, confiante e tratava Drake com um velho conhecido. O mesmo no acontecia com Olvia. Quando Drake estava por perto, tinha a sensao de se encontrar diante de um completo desconhecido. Drake, muitas vezes, ignorava-lhe a presena e s dava ateno ao garoto.
Para tentar se ocupar com alguma coisa, Olvia comeou a trabalhar nos tecidos que havia comprado. Mesmo assim, os seus dias pareciam muitos compridos.
"No, eu fiz muito bem em escrever aquela carta ao Drake. A situao na qual eu me encontrava era insustentvel. E o Simon merecia uma vida melhor. Meu irmozinho era muito triste. Agora, ele sorri com muito mais facilidade", ela pensava, numa linda manh, enquanto arrematava um vestido que tinha acabado de fazer.
Olvia, que estava sentada num banco do jardim da manso, olhou para os lados.
"Isso aqui  tudo muito bonito, mas eu no me sinto feliz. Se no fosse pelo carinho do Simon e do Phillips, eu me sentiria totalmente-perdida. Quem sabe, no ano que vem, tudo no vai mudar? Estarei cursando a faculdade, conhecerei outras pessoas..." Ela deu um profundo suspiro. "Logo estarei completando vinte e cinco anos. No sei por qu, mas o fato de estar para completar vinte e cinco anos est me deixando muito deprimida. No, no  por eu estar ficando mais velha. Mas quando eu era mais jovem, imaginava que aos vinte e cinco anos j estaria formada e pronta para me casar. ... mas eu no posso me queixar da vida. A que tenho agora nem se compara  anterior."
Olvia continuou imersa em seus pensamentos. De repente, ouviu um barulho no porto de entrada da manso e ergueu os olhos. O estremecimento foi imediato. Ela no podia acreditar no que seus olhos viam.
"O que eu mais temia aconteceu! Como? Como ele foi nos descobrir aqui? Drake me disse que ele estava na Austrlia!"
Com uni sorriso irnico, Brian Harley se aproximou dela.
	Oi, Olvia  ele disse.  Sentiu muito a minha falta?
Como ela no respondesse, Brian continuou:
	Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, a gente voltaria a se encontrar.
	O que voc quer, Brian?  Olvia, finalmente, conseguiu perguntar.
	Vim por causa do meu filho.
	Que eu saiba voc no tem filho algum.
	Ah, no? Pois lhe garanto que existe um registro de nascimento que atesta que tenho um filho, sim, senhora.
	Desista, Brian. Voc no vai nem chegar perto do Simon.
	Isso  o que voc pensa. Nenhum juiz vai impedir que Simon fique comigo.
	Ele no  seu filho.
	Mas  claro que Simon  meu filho.  Ele deu uma risadinha provocativa.
	No, Simon no  seu filho. E eu posso provar isso!
	Como?
	Atravs do exame de DNA.
	Ah, sei... Mas esse exame vai provar que ele , sim, meu filho.
	O exame j foi feito e provou que voc no  o pai do meu irmo.
	Verdade?  ele ironizou.  Ento, vou pedir ao meu advogado que obtenha o resultado desse exame e tambm vou tomar outras providncias: que tal denunci-la por rapto?
Sem dizer mais nada, Brian Harley foi embora. Olvia, desesperada, colocou o vestido sobre o banco e caiu num pranto convulso. E foi exatamente naquele estado que Drake a encontrou.
	O que est acontecendo? Por que est chorando desse jeito?
	Ele nos encontrou, ele nos encontrou!
	No estou entendendo. Sobre quem voc est falando?
	Sobre Brian, o meu padrasto. Ele nos encontrou e disse que vai querer o resultado do teste de DNA. E tambm me ameaou.
	De que maneira esse idiota a ameaou?
	Ele disse que pode me denunciar por rapto.
	Calma, Olvia. Voc no pode continuar chorando desse jeito.
	E o que quer que eu faa? Quer que eu ria? Simon no pode ficar nem um dia sequer ao lado daquele homem. No quero me separar do Simon. Nem posso imaginar o Simon morando, nem por poucos dias, com Brian. E se ele resolver sumir com o meu irmo? Dele a gente pode esperar qualquer coisa.
	Mas nenhum juiz, em s conscincia, iria tirar o garoto de voc.
Ela deu um profundo suspiro e disse:
	Ns temos que nos casar.
	O qu?  Ele a fitava espantado.
 Ns temos que nos casar. Se essa histria toda virar um caso de polcia, se estivermos casados, tudo ficar mais fcil.
	Ser?  Drake estava na dvida.
	Mas  claro que sim. J pensou o que ele pode alegar ao juiz? Ele pode dizer que sou sua amante, ele pode alegar que...
	Quanto tempo?  Drake a interrompeu.
	No entendi.  Ela o fitou, enxugando as lgrimas.
	Por quanto tempo voc acha que precisamos ficar casados?
	No sei, no fao a menor ideia. Talvez por uns seis anos. A, se esse caso se arrastar muito, Simon ter condio de dizer ao juiz com quem ele quer morar.
	Ser que no existe outra alternativa?
	Eu no consigo ver outra.
	E que tipo de casamento voc est querendo ter comigo?
	Como assim?  ela perguntou, espantada.
	Estou querendo saber se est pensando em ter um casamento s na aparncia, ou pretende ter um casamento de verdade.
	No tive tempo para pensar no assunto. Brian acabou de sair daqui.
	Pois, ento, pense.
	Bem, se quiser ter um casamento real, estou disposta a assumi-lo. E pode fazer um contrato pr-nupcial. Eu assino o que voc quiser.
	Quanta bondade...  ele ironizou.
	Por favor, Drake, no crie mais problemas. Os que ns j temos so mais do que suficientes.
	Pelo que estou vendo, voc faria qualquer coisa por Simon.
Pode ter certeza que sim. Pelo Simon eu faria qualquer coisa
	Mas por que esse infeliz est querendo um filho que no lhe pertence?
Olvia deu um profundo suspiro e disse:
	Entre outras coisas, por pura maldade.
Quando no incio da noite daquele mesmo dia, Olvia e Drake comunicaram a Simon que iriam se casar, o garoto perguntou meio ressabiado:
	Eu vou ter que chamar voc de tio Drake?
 No, por qu?
	Por nada, mas prefiro continuar chamando voc s de Drake.
	Ento, est combinado.  Drake agachou-se na frente do garoto.  Quer dizer, ento, que amanh voc vai fazer uma consulta para ver como esto os seus ouvidos?
	Vou.
	Isso  muito bom.
	Ser que eu vou mesmo ficar surdo, Drake?
	De maneira alguma. O mdico que vai examin-lo  muito bom.
	E quando eu vou voltar para a escola?
	Muito breve.
	E vou voltar para aquela escola que eu estudava?
	No, voc vai comear a frequentar uma escola que fica bem perto daqui.
	L os meus colegas tambm vo me xingar?
	No, pode ficar tranquilo.
	Agora eu posso ir ver televiso?  Simon fez a pergunta  Olvia.
	Pode. Mas logo ns vamos jantar.
	Certo.
Ao ficarem sozinhos, Drake disse a ela:
	Voc no pode continuar desse jeito.
	Como assim? Sobre o qu est se referindo?
	Voc est muito tensa, Olvia.
	E como queria que eu ficasse?
	Brian no vai ousar fazer nada contra o garoto.
Aquele homem  maluco. Ele  bem capaz de entrar aqui e lev-lo.
	Ele no faria isso. Nenhum juiz daria a guarda de uma criana a um homem que a raptou.
	E eu? O que foi que eu fiz?
	No seu caso foi diferente.
	Espere um pouco, vou ver se Simon est mesmo vendo televiso.
	Olvia  ele a segurou pelo brao , pare com isso. Mas  claro que Simon est vendo televiso. E tem mais uma coisa: Phillips e os outros empregados j esto sabendo o que est acontecendo. Ningum vai pr os ps nessa casa.
	Gostaria de ter a sua certeza.
	A propsito: Brian no matou a sua me.
	E como voc sabe disso?
 Hoje chegou uma cpia da investigao que a polcia fez aps a morte dela. O mdico que forneceu o atestado de bito deixou bem claro que ela bateu a cabea na quina do criado-mudo.
	Mas isso eu j sabia.
	No existia nenhuma outra evidncia que pudesse levantar qualquer suspeita contra o seu padrasto.  Ele a fitou intensamente e quis saber:  Ser que existe algo que voc omitiu?
	No, no existe.
	Brian abusou de voc?
	No, isso nunca aconteceu. Felizmente, Brian nunca gostou muito de mim. Mas tenho certeza de que foi ele quem a matou.
	Voc pode estar totalmente equivocada.
	Ser? Ser que estou mesmo equivocada?
	Bem, agora gostaria que viesse comigo ao meu escritrio. Precisamos conversar.
Aps um longo suspiro, Olvia levantou-se do sof onde se encontrava sentada e o seguiu.
Olvia, sentada em frente  escrivaninha de Drake, esperava para ver o que ele iria lhe dizer. Drake, por sua vez, mexia numa pasta preta  procura de algo.
	Pronto. Est aqui.  Ele estendeu-lhe alguns papis.  Leia e veja se concorda com isso.
Olvia pegou os papis e perguntou:
	O que  isso?
	O nosso contrato de casamento.
	Voc j o preparou? No quero ler.  s me dizer onde eu preciso assinar.
	Mas  claro que voc precisa ler. No pode assinar documentos sem saber do que se trata. Afinal, a ideia do contrato foi sua.
	Drake, no estou com cabea para ler nada.  s me dizer onde eu preciso assinar.
	Leia o contrato, Olvia!  ele ordenou.
Olvia, ento, leu o documento e viu que, entre outras coisas, o divrcio s seria possvel depois que Simon completasse treze anos.
	Por mim, est tudo bem. Onde eu assino?
	Esses papis no passam d um rascunho, Olvia. Vou entreg-los ao meu advogado e pedir que redija um documento oficial. Acho bom voc tambm contratar um advogado.
	Eu no preciso de um advogado.
	Olvia, o que estamos para realizar  apenas um negcio. Portanto, acho melhor procurar um advogado.
"Um negcio... Como Drake  frio. Fique sabendo, moo, que esse casamento para mim no  apenas um negcio. No que me diz respeito, pretendo ser feliz ao seu lado."
	Disse alguma coisa, Olvia?
	No, estava apenas pensando.
	Eu tambm estava pensando.
	Sobre o qu?  Ela sentiu o corao dar um salto dentro do peito.
	Naquele retrato. Lembra?
	Mas  claro que me lembro.
	Gostaria de v-lo mais uma vez. Seria possvel?
	Claro que sim.
Olvia foi at o quarto e voltou com o pequeno porta-re-trato nas mos.
	Aqui est.  Ela entregou o objeto nas mos dele.
	 fantstico. Nunca vi algo que me impressionasse tanto. Essa figura de mulher foi pintada sobre, marfim.
	Como sabe disso?
	Pela luminosidade que apresenta.
	Voc entende de pintura?
	No muito.
	Adoraria saber quem foi essa mulher  ela disse baixinho.
	Na certa algum da sua famlia.
	Pode ser...
	Sabia que esse objeto vale uma fortuna? Se andou precisando tanto de dinheiro, por que no o vendeu?
	Porque me esqueci da existncia dele. E, mesmo se tivesse me lembrado, j lhe disse que prometi a minha me que nunca me desfaria dele, nem o venderia.
	Mesmo se estivesse desesperadamente precisando de dinheiro, no venderia essa preciosidade?
	No  ela balanou a cabea de um lado para o outro , eu acho que no.
	 muito estranho...
	Sabe que at cheguei a pensar que era um presente que voc tinha dado a ela?
	No, no dei esse porta-retrato para a sua me.
	Bem, vou ver como est Simon.
	E o porta-retrato? No quer que eu o guarde para voc? Posso coloc-lo num lugar bem seguro.
	Tudo bem, pode guard-lo.
	Otimo.  Ele sorriu, satisfeito.
	Mas quero um recibo.
	Recibo?
	Exatamente. Quero um recibo que diga que o porta-retrato  meu e pedi para que o guardasse para mim.
	Certo.  Ele colocou o pequeno objeto sobre a escrivaninha.  Eu escrevo o recibo.
"Sei que no gostou desse meu pedido, Drake Arundell. Mas sei que at hoje voc no confia em mim. Acontece que, apesar de tudo, eu tambm no confio em voc".

CAPITULO VII

Na manh seguinte, Drake resolveu que levaria Simon para a consulta no hospital. Olvia, sentada ao lado dele, naquele carro luxuosssimo, sentia-se muito mais tranquila. Algo lhe dizia que Brian, na presena de Drake, no ousaria agir.
E o dia foi bem longo e exaustivo. Na volta, mesmo cansado, Simon conversou com Drake o tempo todo. A operao ficara marcada para o dia seguinte.
Olvia, no entanto, se mostrava totalmente alheia  conversa. Ela, o tempo todo, fazia questo de se lembrar de que o casamento s se realizaria por causa da ameaa que pairava sobre Simon. Sabia que poderia existir desejo de Drake por ela, mas no existia respeito, no existia amor.
"Eu sei exatamente o que estou fazendo. Esse casamento nada mais ser do que uma espcie de imagem refletida num espelho. No uma imagem clara, colorida; mas uma imagem desfocada, embaada, sem vida."
Por volta das nove horas da noite, a campainha da porta anunciou um visitante.
Olvia, que se encontrava na sala de visitas lendo uma revista, ao ouvir o barulho da campainha, estremeceu.
"Acho que Brian no chegaria a tanto! Ser que ele ousaria tocar campainha dessa casa?"
Trmula e muito ansiosa, ela fechou a revista e continuou sentada no sof, sem conseguir mover um msculo.
Um pouco depois, Phillips entrava na sala acompanhado por dois homens.
"Eles s podem ser da polcia. Meu Deus, Simon.est perdido!"
Mas ao saber que um daqueles homens era um joalheiro e o outro um segurana, Olvia respirou aliviada.
Quando os dois estavam para se sentar, Drake entrou na sala e disse:
	Achei mais seguro voc escolher o anel aqui.
"Anel. Ele quer que eu escolha um anel..."
Drake sentou-se e o joalheiro colocou diante de Olvia vrios anis de brilhante, um mais lindo do que o outro.
"Drake no deveria ter se preocupado com uma coisa dessa. E muito dinheiro para ser desperdiado. Mas j que  para escolher, tenho que me interessar pelo mais barato."
	E ento? Qual deles voc vai escolher?
"Ser que tenho mesmo que escolher? S que no fao a menor ideia de qual deles  o mais barato!"
	O que foi, Olvia?
	Eu... eu no estou sabendo escolher.
Drake lhe deu um pouco mais de tempo. Vendo que ela no se decidia, disse:
	Bem, j que no consegue escolher, vamos usar o processo de eliminao. De qual deles voc no gostou?
	Eu...  "Meu Deus, o que eu fao agora?"
	Vamos, querida  ele insistiu ,  s comear a eliminar aqueles que voc no gostou.
"Querida... Quem o v assim, me tratando com tanta cordialidade, vai achar que Drake me ama mais que tudo no mundo. Mas eu tenho que me decidir, continuar com a representao."
Sem hesitar mais, ela apontou ao acaso trs dos anis, que foram imediatamente guardados. Em seguida, mais trs. Alguns instantes depois, s restavam sobre a mesa dois anis.
	A senhora sabe apreciar uma bela jia  o joalheiro comentou.
	Prefiro o da direita  ela disse, agora sem a menor hesitao.
	Boa escolha, senhorita. Boa escolha. O diamante desse anel  o mais raro que possuo.
"Ser? Ser que acabei escolhendo a pea mais cara? S me faltava essa!"
Agora a senhorita precisa escolher as alianas.
"Uma aliana que tambm no vai representar nada."
O joalheiro colocou sobre a mesinha de centro um mostrurio com vrias alianas.
Apesar de continuar se sentindo como personagem de uma pea de teatro, Olvia logo se encantou por uma aliana bem fininha.
	Essa aliana  muito delicada.  Ela pegou a jia na mo.
	Tambm gostei muito dessa aliana  Drake concordou.
	Bem, ento ns ficaremos com ela.
Quando o joalheiro se retirou, Drake pegou o par de alianas e comentou:
	So realmente muito delicadas.
	No pensei que fssemos usar alianas.
	Mas ns vamos, sim. Ou voc est a fim de desistir de tudo?
	No, eu no vou desistir.
	Vejo que pelo bem-estar do Simon voc no mede esforos: vai at se casar com um homem que no ama e no confia.
	J disse a voc que adoro o meu irmo.
	Certo.  Ele tomou-lhe a mo direita, e com muita delicadeza, colocou-lhe no dedo anular o anel de brilhante. Em seguida, beijou-lhe a palma da mo.
Olvia logo percebeu que aquela era a maneira de Drake selar o compromisso que existia entre os dois. Sem saber o que fazer, resolveu perguntar:
	Teve alguma notcia do meu padrasto?
	No, nenhuma.
	Ser que ele no telefonou enquanto estivemos fora?
	Se Brian houvesse telefonado, Phillips na certa me passaria o recado.
	E verdade. Bem, agora eu vou para o meu quarto.
	Quando vai perder esse hbito, Olvia?
	Sobre o que voc est falando?
	 Quando voc vai parar de fugir?
Olvia ia responder  pergunta, mas desistiu. Era melhor ignor-la. Levantando-se, ela deixou a sala, no sem antes ouvir uma risada de Drake.
Na manh seguinte, depois de muita insistncia de Drake, ela concordou em procurar um advogado que, pelo menos, lesse o contrato que iria assinar.
	S que eu no conheo nenhum advogado, Drake.
	Pois eu conheo vrios. Posso lhe indicar um.
	Certo.
Quinze minutos mais tarde, Drake j estacionava em frente ao prdio onde ficava o escritrio do advogado.
	Eu no vou subir com voc.
	Por qu?  ela quis saber.
	No acho nada tico presenciar esse encontro. Mas eu a espero aqui.
	Eu posso voltar de nibus para casa.
	De maneira alguma. Eu a levo de volta para casa. Olvia, ento, foi conversar com o advogado que lhe assegurou que no deveria assinar o documento.
	Principalmente por causa da clusula que deixa bem claro que a senhorita no tem direito a nada que o casal conseguir aps a realizao do casamento  o advogado lhe explicou.
Olvia, porm, no quis seguir os conselhos do advogado e disse que nada precisaria ser mudado no documento.
Quando ela voltou para o carro, Drake simplesmente ligou o veculo e partiu, sem fazer nenhuma pergunta sobre o que havia ocorrido no encontro com o advogado.
	Para onde voc est indo?  ela quis saber, quando percebeu que Drake tomava o rumo do centro da cidade.
	Vou lev-la ao ateli de uma modista muito famosa.
	Para qu?
	Voc precisa de roupas mais sofisticadas.
	Mas eu estou fazendo alguns vestidos.
	E eu sei disso. Os vestidos que est fazendo, por sinal, so muitos bonitos. Mas, como disse, voc precisa de roupas mais sofisticadas.
	Drake, por favor, no insista: tenho muita roupa.
	Fao questo de que use roupas de extrema qualidade.
	No insista, no estou precisando de roupas. Se comprar alguma coisa mais para mim, garanto a voc que vai ficar no guarda-roupa.
	Mas no vai mesmol Vai us-las, nem que para isso eu precise vesti-las em voc.
Olvia, ento, resolveu se calar. Pelo que j sabia, nada fazia Drake Arundell mudar de ideia.
No salo em branco e preto, enfeitado apenas por uma arranjo delicado de orqudeas, Olvia e Drake estavam sentados em um sof. E o desfile comeou.
"Um desfile s para mim. Jamais pensei que isso fosse me acontecer um dia. E todos os modelos so muitos bonitos."
As manequins continuavam a desfilar diante dos dois. Sam, uma modista de meia-idade, em p ao lado do sof, comandava o desfile.
"Daqui a pouco, Drake vai querer que eu escolha alguns modelos. E, mais uma vez, no vou saber o que fazer."
Dez minutos mais tarde o desfile terminava.
	Quais desses modelos voc vai levar, querida?  ele perguntou.
	Bem, so todos muito bonitos, est sendo muito difcil escolher.
	No tem problema. Tambm gostei muito de todos eles. Vamos levar a coleo inteira.
	Drake, eu...
	Sam  ele olhou para a modista que parecia muito satisfeita , vamos mesmo levar toda a sua coleo.
	Voc  um homem de muito bom gosto, Drake.
	Obrigado, Sam.  Ele se levantou.  Olvia ter que provar os modelos, no?
	Claro  Sam disse, ainda muito sorridente.
	Ento, vou aguardar na outra sala.
Ao se ver sozinha diante da modista, Olvia se sentiu profundamente envergonhada. A atitude de Drake tinha sido absurda.
"Jamais, jamais vou conseguir devolver tanto dinheiro a ele. E isso  desperdcio demais. Imagine, comprar uma coleo inteira!"
Sam, ento, sempre muito gentil, chamou uma assistente que comeou a ajustar as roupas. Depois de um bom tempo, quando Olvia havia pensado que tudo havia determinado, Sam disse:
	Agora falta o principal.
A modista se afastou e voltou com um vestido de noiva nas mos.
	Meu Deus, que coisa mais linda!  Olvia no pode deixar de exclamar.
	Ele  lindo mesmo  a modista concordou, orgulhosa.  Vamos, Olvia, experimente-o.
Ao se olhar no espelho vestida de noiva, Olvia se emocionou.
	No me diga que vai chorar  Sam brincou.
	Acho que vou, sim. Esse vestido  lindo demais. Ele  to delicado.
	E ficou perfeito em voc. S preciso dar uma arrumadinha na manga esquerda.
	Parece que foi feito sob encomenda  Olvia comentou.
	De uma certa maneira foi, sim. Drake me telefonou e me disse que queria um vestido para uma mulher loira, esguia, de olhos bem azuis. Ele chegou at a me dizer a sua altura.
"A minha altura? Como isso  possvel? Drake sempre se mostra distante e, na maior parte do tempo, se comporta como se no me enxergasse."
	Experimente, agora, os sapatos, Olvia.
	Que maravilha, eles foram feitos do mesmo tecido do vestido.  Ela calou os sapatos.  Esto perfeitos.
	Otimo. E na cabea, a pedido do noivo, voc vai usar essa flor aqui.  Sam mostrou-lhe uma rosa branca, tambm confeccionada no mesmo tecido do vestido e do sapato.
A modista colocou-lhe a rosa na cabea e exclamou:
	Linda, voc est realmente muito linda!
	E morrendo de vontade de chorar.
	Por favor, no faa isso. Se chorar, vai acabar manchando o vestido.
	Tudo bem, Sam, eu no vou chorar.
Quando se despediam da modista, Drake disse:
	Foi um prazer rev-la, Sam.
	O prazer foi todo meu, querido. E no se preocupem: o vestido de noiva e as roupas que precisam apenas de um pequeno ajuste, sero entregues amanh. As outras, sero entregues no mximo em uma semana.
	Certo.
Os dois saram do ateli em silncio.
No carro, a caminho da manso, Drake perguntou:
	Por que est assim to calada?
	E voc ainda pergunta? Jamais vou conseguir lhe devolver tanto dinheiro.
	J disse que no quero que me devolva absolutamente nada.
	Voc me pareceu muito amigo de Sam.
	E sou mesmo. Ela  uma velha amiga. Ser que ficou com cime de Sam?
	De jeito nenhum.
	Ainda bem. Ela tem idade para ser minha me.
	As mulheres que sempre leva ao ateli dela tambm tm idade para serem sua me?
	Ento  isso! Pois fique sabendo que jamais levei mulher alguma ao ateli de Sam.
	E quer mesmo que eu acredite numa coisa dessa?
	Conheci Sam atravs de um amigo. Um dia ela precisou de dinheiro e me procurou. E por isso que nos tornamos to amigos.
Na manh do dia seguinte, bem cedo, Simon foi levado de volta ao hospital. A cirurgia durou pouco mais de uma hora e o garoto no precisou ficar internado.
J em casa, Olvia s saiu do lado do irmo por volta das quatro da tarde quando Sam foi lhe entregar parte da encomenda. A modista se fazia acompanhar por uma esteticista que, alm de ensin-la alguns certos cuidados que deveria tomar com a pele, tambm a ensinou a se maquiar.
	Voc tem um rosto muito diferente, Olvia  a este ticista comentou.  De quem voc o herdou?
	Da minha me. Ela era uma mulher muito bonita.
		Voc no  apenas uma mulher bonita, voc  uma mulher fantstica.
Naquela noite, aps Simon ter ido dormir, Drake foi procur-la no quarto.
	Tenho algo para lhe dizer, Olvia. Mas  melhor irmos para a sala.
	Certo.  Olvia o acompanhou at a sala de vdeo e som e os dois sentaram-se num dos sofs.
	Antes de nos casarmos, precisamos falar a respeito de um assunto.
	E que assunto  esse?  ela quis saber.
- Quero conversar com voc sobre a sua me.
	No  ela disse com extrema veemncia, ficando de p.
	Escute...
	No, de jeito algum. Nosso casamento  de convenincia. Portanto, no quero saber dos detalhes srdidos do caso que teve com a minha me. J sei que tirou vantagem de uma mulher muito infeliz e nada do que me diga vai redimi-lo do que fez a ela.
	Olvia...
	Esquea, Drake. Simplesmente, esquea!  Ela estava quase gritando.  S de pensar o que fez com minha me, sinto meu estmago revirar. Nenhuma desculpa, nenhuma explicao vai traz-la de volta. Nem vai me trazer de volta os anos que perdi tentando limpar a sujeira que voc deixou para trs. Portanto, esquea! No quero ouvir nada, absolutamente nada sobre esse assuntol
	Bem, pelo jeito, no tenho mesmo nada a dizer.
	No, sobre esse assunto, voc no tem mesmo nada a dizer! Boa noite!
Olvia correu para o quarto e chorou muito antes de dormir.
Olvia e Drake se casaram numa manh ensolarada. A cerimnia muito simples, alm da presena de Phillips e Simon, contou com o casal Jensen como padrinhos. Depois do casamento, a caminho de casa para o almoo de comemorao, Drake disse:
	Voc est encantadora.
	Pensei que no tivesse notado.
Drake havia alugado uma limusine. Simon seguia no Jaguar com Phillips. Logo atrs, num outro carro, seguiam os Jensen.
	Pois eu notei. E est com o mesmo aspecto lindo, muito saudvel.
	Estou me parecendo com uma chefe de torcida? E isso que est querendo me dizer?
Drake no pde deixar de rir daquele comentrio.
	O que voc tem contra as chefes de torcidas?
	Eu? Absolutamente nada. Por qu?
	Voc me pareceu meio irnica quando se referiu a elas.
     Foi impresso sua.
	Mas  verdade, Olvia, voc est belssima.
	Muito obrigada  ela disse, meio na defensiva.  Voc tambm est timo neste terno azul-marinho.
Ao chegarem na manso, Drake abriu um champanhe e todos brindaram  sade dos noivos. Em seguida, o bufe contratado por ele serviu um almoo muito especial: vrias saladas como entrada, lagosta e camaro grelhado, acompanhado de arroz  grega, como prato principal e, como sobremesa, uma deliciosa musse de chocolate.
J na sala de estar, enquanto os adultos saboreavam um delicioso licor, Simon, muito feliz por causa do casamento e pelo livro que havia ganho de Drake, conversava animadamente com os Jansen e com Phillips.
"Como Simon melhorou. Agora ele est mais socivel e de maneira alguma lembra o garoto que foi um dia. Graas a Deus, a operao foi um sucesso. E valeu a pena tanto sacrifcio. Valeu a pena ter escrito para Drake e ter me submetido a tanta humilhao. Simon merecia isso tudo e muito mais. No podia v-lo, a cada dia que passava, perder mais e mais a audio e no fazer nada para ajud-lo. No me arrependo de nada do que fiz. Nem desse casamento, que na verdade no passa de uma grande loucura, eu me arrependo. No sei o que vai acontecer daqui para frente, no sei se conseguirei o mnimo de tranquilidade ao lado de Drake, mas no me arrependo de ter tomado uma deciso to sria. Preferia que ele houvesse se casado comigo por amor. Mas, j que no foi assim, tenho que me conformar com a situao."
	O que est acontecendo com a noiva?  Aura quis saber.  Voc, de repente, ficou muito calada, Olvia.
	Nada, no aconteceu nada.
	J sei: voc est emocionada.
	 isso: eu estou emocionada  ela se viu obrigada a concordar.
	Eu tambm estou muito emocionado  Simon interferiu na conversa.
	Por qu?  Aura quis saber.
	Adorei ver a Olvia vestida de noiva.
Todos riram muito do comentrio do garoto que continuou:
	Ela parece uma fada, no parece?
	Devo concordar com voc, garoto  Flint, sempre muito calado, comentou.
	Tambm estou muito emocionado porque j posso ouvir tudo direitinho.
Com aquele comentrio do irmo, Olvia se emocionou de verdade.
"Valeu a pena, sim, tudo o que Fiz!"
	Agora meu colegas no vo mais caoar de mim.
"No, eu no posso chorar. Mas  muito bom poder ouvir isso. Simon, felizmente, est muito mais autoconfiante e, tenho certeza, vai se tornar um adulto saudvel, sem nenhum tipo de complexo."
	Voc sabia que o Drake me deu um livro de presente, Aura?
	 mesmo? E o livro  sobre o qu?
	Sobre carros de corrida. Quando eu crescer, alm de procurar ossos de dinossauros, tambm vou ser piloto de Frmula Um.
	Voc j tem um macaco?
	No, ainda no. Mas voc vai me comprar um, no vai Drake?
	Dois. Eu vou comprar dois macaces para voc. Um vermelho e outro amarelo.
	Eu preferia azul. Um azul e o outro amarelo.
	Perfeito.  Drake concordou.
	Eu prometo que compro dois capacetes para voc, Si mon. Um azul e outro amarelo  Aura disse, rindo.
	Voc promete mesmo, Aura?
	Pode escrever.
	E voc, Flint? Voc no vai me dar nada?
	Simon, o que  isso?  Olvia repreendeu o irmo.  Ser que se esqueceu de tudo que lhe ensinei?
	Eu s estava querendo as luvas, Olvia.
	No estou gostando nada disso, Simon.
	Pode deixar, Olvia, eu ia mesmo oferecer as luvas para ele  Flint disse.  Quantos pares voc quer, campeo?
	Dois...  Simon olhou para a irm e logo mudou o pedido:  No, eu errei: quero um par s.
	Otimo. Vou d-lo para voc.
	E eu?  Phillips quis saber.  No vou dar nada de presente para voc, Simon?
O garoto pensou um pouco e respondeu:
	Acho que voc pode me dar um skate. Tambm quero aprender a andar de skate.
A conversa continuou animada, mas Olvia ficou muito preocupada.
"Isso no pode continuar acontecendo. Simon, s vezes, ultrapassa todos os limites. Onde j se viu ficar pedindo as coisas para os outros? Antes ele no era assim; muito pelo contrrio. Se no tomar cuidado, meu irmo vai se transformar num garoto muito mimado, sem a menor noo do quanto  difcil sobreviver nesse mundo. No me importa se Drake tem muito dinheiro: Simon vai ter que continuar vivendo com simplicidade. No quero que ele se transforme num adulto irresponsvel! Hoje em dia, os adolescentes esto fazendo qualquer coisa para conseguirem uma cala, um par de tnis de grife famosa... Mas eu no quero isso para o meu irmo. No quero mesmol E preciso ter uma conversinha com ele."
Olvia, mesmo preocupada com o comportamento de Simon, continuou conversando com os amigos. Porm, em um dado momento, quando Simon contava aos Jensen como tinha sido a operao, ela sentiu seus olhos se encherem de lgrimas.
Quando me lembro dele me ajudando a dobrar e depois a distribuir aqueles papis, vejo o quanto eu o estava privando de uma infncia sadia. Mesmo assim, no posso esmorecer. Simon tem que aprender que a vida  muito dura, que na vida precisamos lutar muito para nos tornarmos algum respeitvel."
	Bem, acho que j vamos  Aura se levantou.  J  tarde.
	No querem ficar mais um pouco?  Drake sugeriu.
 Vocs poderiam jantar conosco.
	Jantar?  Aura se fez de ofendida.  Mas de jeito nenhum! Est querendo que eu engorde, Drake?
	Mas voc est tima.
	E quero continuar assim. Ser que no viu que eu repeti aquela musse de chocolate? Agora s vou ver comida amanh na hora do" almoo. E olhe l!
	Voc no vai ficar com fome, Aura?  Simon perguntou de maneira inocente.
	Pode ter certeza que sim, querido.
	Mas o meu mdico disse que a gente precisa comer bastante.
	Acontece, mocinho  Aura passou a mo pela cabea do garoto , que voc s tem seis anos. E eu j fiz seis anos, j fiz doze, j fiz dezoito...
	E mesmo?  Simon a fitava confuso.  Voc j fez tudo isso?
Todos riram muito da situao. Os Jensen, ento, se despediram e saram, acompanhados por Phillips.
	Gosto muito dos Jensen  Olvia comentou.
	E eles, pelo jeito, gostam muito de voc.
- Mas Aura  muito mais falante do que o Flint.
	Com toda certeza.
	Eles deveriam ter trazidos os filhos.
	O menino e a menina ainda so muito pequenos.
	No so to pequenos assim. O menino tem quatro anos e a menina tem dois, no  isso?
	Exatamente.
Ento, se as crianas tivessem vindo com eles, Simon no se sentiria o centro das atraes.  
	Ser que eu posso ir ver televiso?  Simon perguntou ao se acercar dos dois que estavam sentados no sof.  Hoje tem corrida de Frmula Um.
	Pode, mas s at a hora do jantar.
	E se a corrida ainda no tiver acabado?
	A, voc vai ver os melhores momentos no resumo da semana.
	Assim eu no gosto, Olvia.
	Mas  assim que vai ser.
	Voc  muito mandona  o garoto se dirigia para a porta.
	E voc est se revelando muito mal-educado, sabia?
	Simon respeita muito voc  Drake comentou, depois que tinham ficado sozinhos.
	E vai ter que continuar respeitando. No quero que ele se torne um adulto indisciplinado e alienado.
	Ele vai se tornar um adulto excelente, tenha certeza disso.
	Espero. Espero, mesmo.  Olvia o fitou e quis saber:  Voc contou aos Jensen o motivo real do nosso casamento?
	No, apesar de confiar muito nos dois, no lhes contei nada e nem vou contar. E tenho de lhe dar uma notcia no muito agradvel, Olvia.
	E que notcia  essa?  Ela sentiu o corao disparar dentro do peito.  E sobre Brian, no ?
	.  sobre ele.
	O que foi que ele fez?
	Brian entrou na justia com o pedido de custdia do filho dele.
	Simon no  filho delel E ns podemos provar isso.
	Tenho certeza de que tudo vai dar certo.
	E o que a gente faz at que tudo d certo?  ela perguntou, com muita ironia.
	A gente representa.
	Representa? Como assim?
	A gente representa que  uma famlia feliz. Simon est muito bem, j recuperou quase totalmente a audio, duvido que qualquer juiz possa tir-lo de ns.
	E se o Brian insistir? E se...  Ela balanou a cabea em negativa.  No quero, de maneira alguma, que o Simon passe um segundo sequer com aquele homem.
	Calma, Olvia, tente relaxar. Esquea o que aconteceu nesses sete ltimos anos.
	Falar  muito fcil. E ns s nos casamos por causa do que aconteceu nesses ltimos sete anos. Ser que uma pessoa simplesmente pode ignorar o passado? Voc pode fazer isso?
	Eu pelo menos tento. Se voc tentasse...  Ele se levantou e afrouxou a gravata.  Bem, preciso ir verificar uns documentos.
Sozinha, na sala de estar, Olvia sentiu-se muito deprimida.
"Ele pensa que  fcil esquecer? Como posso esquecer o sofrimento da minha me? Como posso esquecer o meu sofrimento, as mgoas que tive que suportar? No, a vida para Drake, nesses ltimos anos, foi muito diferente do que a minha. Ele no tem a menor ideia do que seja a pobreza, a quase e total misria. Ele no sabe o que significa ter uma criana em casa, precisando de cuidados mdicos e no poder nem sequer sonhar em ajud-la. Eu sofri muito nesses sete ltimos anos, muito... E no posso colocar uma pedra sobre eles, fazer de conta que no existiram!"
Olvia se levantou e foi para o quarto. Ao se olhar no espelho, comeou a chorar.
	Que noiva sou eu?  ela perguntou baixinho para sua imagem.  Que noiva sou eu? E o que vai ser da minha vida daqui para frente? Casada com um homem que no me ama, casada apenas para defender uma criana.
Devagar, ela retirou a maquilagem e foi tomar um banho. Um pouco mais tarde, desceu para servir o jantar a Simon e no viu Drake.
Quando voltou para o quarto, jogou-se na cama e comeou a chorar convulsivamente.
"Apesar de tudo o que aconteceu, desejo aquele homem. E no  nada fcil, para mim, saber que o desejo."
Olvia se levantou e, para tentar se acalmar, foi lavar o rosto na pia do banheiro. Porm, quando viu mais uma vez a sua imagem no espelho, voltou a chorar desesperada. A verdade, naquela imagem que via refletida, viera  tona.  No  apenas desejo que sinto por Drake.  amor. Amo o homem que causou a desgraa da minha me. E isso  imperdovel!

CAPITULO VIII

No dia seguinte ao casamento, quando estavam tomando o caf da manh, Drake disse:
	Daqui a pouco, vamos levar Simon para a escola. Depois, voc e eu iremos falar com o meu advogado.
Olvia que, olhando para o copo de suco que tinha diante de si, se encontrava a quilmetros dali, no ouviu o que Drake disse.
	Falei com voc, sra. Arundell. Ser que poderia me dar um pouco mais de ateno?
Ela, ainda ausente, perdida em pensamentos, continuava com o olhar fixo no copo de suco.
	Olvia!  ele chamou num tom de voz bem mais alto.
	O que foi?  ela perguntou, aps um forte estremecimento.
	Disse que logo mais iremos conversar com o meu advogado.
Ao ouvir aquelas palavras, Olvia teve a sensao de que seu sangue congelava nas veias. Assustada, olhou para a porta da cozinha de onde vinha a voz de Simon, que havia resolvido ajudar Phillips a preparar as torradas.
	O que aconteceu? Por que est assim?
	Fale baixo, por favor.

	Por qu?
	Estou com muito medo dessa histria toda.
	Sobre qual histria, especificamente, est se referindo?
	Mas  claro que estou me referindo ao Brian. E estou pensando em fugir com o meu irmo..
	De maneira alguma.
	Ser que no entende, Drake? Se Simon estiver em perigo, eu...  Olvia no terminou a frase.
	Eu entendo, entendo perfeitamente bem tudo o que est acontecendo. Mas a sua reao tem de mudar. No pode ficar fugindo quando aparece algum problema. Os problemas, Olvia, existem para serem enfrentados e resolvidos. Voc mesma, por experincia prpria, sabe que a fuga no nos leva a lugar algum. Voc tem que ficar. Ficar e enfrentar todos os problemas que aparecerem.
	Eu s fugi uma vez durante toda a minha vida.
	E est querendo fugir de novo. Me parece que esse  um comportamento que voc tende a repetir.
	Ser que voc estudou psicologia?
	No, eu no estudei psicologia.
	Ento, por favor, no tente agir como psiclogo comigo.
Dispenso as suas anlises.
	Voc est muito agressiva.
	No, eu no estou agressiva. Apenas estou morrendo de medo de perder o meu irmo.
	Ento  hoje?  Simon entrou na sala, segurando uma travessa com as torradas.   hoje que eu comeo na minha nova escola?
	E hoje, sim, Simon.
	Estou louco para conhecer a minha nova professora e os meus novos amigos. Agora ningum mais vai me xingar. J posso ouvir direitinho.
	Graas a Deus  Olvia disse, emocionada.
	Graas a Deus  o garoto repetiu as mesmas palavras da irm e, depois de sentar-se  mesa, disse para Drake:  Eu rezei muito para Deus deixar eu escutar de novo, sabia?
	E o que voc rezava?
	Um monte de coisas que a Olvia me ensinou. Deus foi muito bonzinho comigo.
	Agora tome o seu caf da manh, querido. Caso contrrio, vai se atrasar.
Quando chegaram  escola, Olvia e Drake deixaram o garoto na sua nova classe e foram pedir  diretora que, sob hiptese alguma, deixasse o garoto sair sozinho e nem receber visitas.
	Vocs esto com problemas de custdia?  a diretora perguntou.
	Estamos.
	Sei como lidar com isso, no se preocupem. Ningum entra aqui sem a minha autorizao. E quem vem buscar o garoto na sada?
	Minha esposa, ou o meu empregado que j esteve aqui comigo  Drake apressou-se em responder.
	Pode ficar tranquilo, Simon ficar seguro aqui. E tenho certeza de que vai se adaptar depressa  escola.
Quando Olvia e Drake j se encontravam dentro do carro, ela exclamou:
	Que Deus nos ajude!
	Ele vai ajudar.
	Por favor, me leve logo para casa.
	Mas ns no vamos para casa, Olvia.
	No?  Ela o fitou meio desentendida.
	No, ns vamos visitar o meu advogado. Depois vou lev-la para almoar.
	Precisamos mesmo ir conversar com o advogado?
	Tenha certeza que sim.
Drake ligou o carro e partiu.
Olvia, com os olhos arregalados, fitava o advogado.
	De jeito nenhum! No quero e no vou aceitar um absurdo desse!
	Mas a senhora ter que aceitar. Com toda certeza, logo depois da primeira audincia, o juiz vai autorizar que Brian Harley veja o garoto.
	Acontece, doutor, que eu no quero que isso acontea. Simon no  filho dele.
	Mas Brian acha que .
	O homem sabe que o garoto no  dele  Drake interferiu na conversa.  A me de Simon, a falecida me da minha esposa, disse a Brian a verdade, depois que o menino nasceu.
	E quem lhe contou isso?  o advogado quis saber.
	A minha esposa,  lgico.
	Pois a, sr. Arundell, ser a palavra da sua esposa contra a do padrasto. No se esquea de que Brian Harley registrou o garoto como filho dele. E sua esposa fugiu com a criana. Se Brian disser, e puder provar, que durante esses anos todos andou procurando pelo filho, ele vai ganhar muitos pontos diante do juiz.
	Tive excelentes razes para fugir com o meu irmo.
	Se teve boas razes, sra. Arundell, gostaria muito de saber quais so elas.
	Eu...  Olvia sentiu que ficava tensa.
	 de vital importncia que ela fale a respeito desse assunto?  Drake perguntou.
	Se isso deixar claro que Brian era um pai omisso ou inadequado, tenha certeza que sim.
	No posso provar nada contra aquele desqualificado. Ser mais uma vez a minha palavra contra a dele.
	Bem, acho melhor deixarmos essa discusso para uma outra hora  Drake sugeriu.
	Por mim, est timo. Por enquanto, j tenho tudo o que preciso para iniciar a causa. Mas quero lhes pedir uma coisa antes que saiam.
	Do que se trata?  Drake quis saber.
	Mostrem-se um casal feliz, de bem com a vida. Sob hiptese alguma discutam algo em pblico. Mesmo diante de pessoas muito prximas, tero de aparentar uma imensa felicidade. O juiz tem que acreditar que o garoto ficar muito melhor com vocs.
	Entendi.
No restaurante, Olvia estava muito amuada.
	Sorria  Drake lhe recomendou.
	Sorrir? De qu? Por qu? E para qu?
	Foi o que o nosso advogado nos recomendou. E temos que cuidar disso.
	De qu?
	De nossa imagem de felicidade. Conhece algum aqui em Auckland?
	Sempre tive muito medo de ser descoberta. Portanto, me relacionava pouco com as pessoas. Mas tenho, sim, alguns conhecidos. De hoje em diante, precisaremos nos relacionar com o maior nmero de pessoas possvel. Pessoas que sejam capazes de poder chegar diante do juiz e dizer com convico que somos o casal mais compatvel e feliz que existe sobre a face da terra. E, por favor, sorrial
Olvia deu um profundo suspiro e, atendendo ao pedido de Drake, abriu um amplo sorriso.
	timo. Assim fica muito melhor. Com um sorriso como esse nos lbios, todos vo dizer que somos um casal perfeito, o par ideal.
Drake, ento, fez um sinal para o garom e, depois de terem feito o pedido, disse-lhe que lhes trouxesse tambm um Malborough Sauvignon Blanc para beber.
Minutos mais tarde, saboreando a bebida, Drake comeou a conversar animadamente com ela. Cerca de uns dez minutos mais tarde, quando Olvia se viu gargalhando por causa de uma histria contada por ele, algum com uma voz doce, suave e muito sedutora os interrompeu:
	Querido, mas que grande prazer encontr-lo aqui.  Uma moa se curvou e o beijou no rosto.  Pensei que almoasse no escritrio. Tenho certeza de que ainda faremos de voc uma pessoa civilizada.
Meio sem graa, Drake se levantou e disse:
	Como vai voc, Jan?
	Muito bem, querido, obrigada.  E olhando diretamente para Olvia, Jan perguntou apenas por curiosidade:
 No vai nos apresentar?
	Mas  claro que sim. Essa  minha esposa.  Drake fazia as apresentaes com muita calma.  Olvia, essa  Jan Carruthers, uma velha amiga.
Apesar de fazer de tudo para no demonstrar, a surpresa de Jan era muito grande.
	Esposa? Mas, ento, o seu casamento foi bem repentino.
	Me apaixonei por Olvia quando ela tinha dezessete anos.  Ele olhava para Olvia com extremo carinho.  Mas tivemos que nos separar para que eu pudesse ganhar dinheiro. Ns nos casamos ontem. Hoje deve ter sado uma nota no jornal.
	Parabns, querida.  Jan Carruthers sorriu de maneira amistosa.
	Muito obrigada.
	Bem, Drake, voc poderia ter avisado aos seus velhos amigos. Adoraramos ter participado de um momento to importante de sua vida. Mas vamos deixar isso para l. No sbado  noite estarei dando uma festa na minha casa. Por que no aproveita para apresentar a sua linda esposa a todos?
	Vai ter que ficar para uma outra vez, Jan. Infelizmente, j temos compromisso para o sbado  noite.
	Que pena...  Jan olhou para Olvia.  Ento, fica para outra vez. Eu ligo para voc, querida, a a gente organiza uma festinha.
	Estarei aguardando o seu telefonema, Jan  Olvia respondeu.
	Bem, ento, j eu vou inda.  No instante em que Jan ia se afastar, uma outra voz feminina se fez ouvir:
	No acredito que seja voc, Drake.
	Pois pode acreditar, Anet.  ele mesmo.  Jan fez as apresentaes:  Olvia, essa  a minha irm, Anet. E essa linda moa, Anet,  a esposa de Drake.
	 um grande prazer, conhec-la  Anet disse, com um lindo sorriso nos lbios.
	O prazer  todo meu, Anet.
	Espero que sejam muito felizes.
	Muito obrigado, Anet..  Drake agradeceu e continuou conversando animadamente com as duas irms.
	Bem, acho bom a gente se apressar, Anet  Jan disse e, dirigindo-se  Olvia, comentou:  Temos um compromisso inadivel.
	Vamos, sim.  Anet voltou a sorrir para Olvia.  Foi um prazer conhecer voc, querida.
	O prazer foi todo meu, Anet.
Quando as duas irms se afastaram, Drake voltou a sentar-se. Olvia, ento, esperou um pouco para comentar:
	So muito simpticas essas suas amigas.
	So, sim. As duas so duas moas excelentes.
O garom se aproximou com a comida e os serviu. Olvia, muito animada, saboreou a excelente comida. E os dois conversaram muito como se fossem velhos amigos.
Ao sair do restaurante abraada com Drake, Olvia tinha a sensao de que flutuava, tamanha era a felicidade que tomara conta dela.
"No sentia isso desde os meus dezessete anos..."
Mas Drake, com apenas uma frase, quebrou aquele estado de xtase:
	Agora teremos que nos separar.
	O que foi que disse?
	Tenho uma reunio daqui a quinze minutos. Sinto muito, Olvia, mas vai ter que ser assim. E isso continuar pelos prximos meses. Talvez em agosto eu consiga tirar uns dias de folga. A, sim, poderemos passear e nos divertir.
Onde voc prefere ir passar esses dias? No Caribe, ou em alguma estao de esqui?
	Prefiro ir esquiar. Ou melhor: Simon vai preferir ir para um lugar onde^ possa esquiar.
	Ele j esquiou alguma vez?
	No, mas vive falando que quer aprender.
Drake fez sinal para um txi. Olvia entrou no veculo e, sentindo-se bastante frustrada, forneceu ao motorista o endereo da manso.
Ao chegar em casa, Olvia se sentiu absolutamente sozinha. Sem saber o que fazer, foi para a cozinha e encontrou Phillips passando roupa.
	Vai ter que me ajudar a encontrar algo com que eu possa me ocupar. Caso contrrio, vou me sentir muito entediada.
	E o que gosta de fazer, Olvia?

	Flores. Adoro fazer arranjo de flores  ela disse a primeira coisa que lhe veio  mente.  Tambm adoro cuidar de jardim.
	Infelizmente, temos um jardineiro que vem aqui trs vezes por semana.
	Ento, vou ter que conversar com o jardineiro. Espero  que ele deixe uma parte do jardim para eu cuidar. E voc, Phillips? O que detesta fazer?
	Arranjo de flores.
	E mesmo?  Ela sorriu.
	E tambm no sei arrumar a mesa muito bem.
	Pronto: vou ficar responsvel pelos arranjos florais dessa casa e pela arrumao da mesa.
	Antes temos que falar com Drake para ver se ele concorda com isso.
	Falaremos com ele. Agora vou ler um pouco.
Olvia foi para a sala de estar e pegou uma revista. Instantes depois, sentiu um sono muito grande.
"Acho que bebi demais..."
Ela recostou-se no sof e adormeceu.
Cerca de duas horas mais tarde, Olvia acordou e foi tomar um banho. Quando voltou para a cozinha, Phillips lhe disse:
	Estou indo buscar o Simon na escola. Quer ir comigo?
	Mas  claro que sim.
Olvia jamais vira o irmo to feliz. Simon tinha adorado a escola, os novos colegas e a professora. Depois do jantar ela o levou para o quarto.
	Sabe de uma coisa, Olvia?  o garoto perguntou quando j estava na cama. E no esperou pela resposta: Minha professora no precisou me colocar na frente. Sentei no fundo da classe e ouvi tudo.
	Isso  maravilhoso.  Olvia beijou o rosto do garoto.
Era a quarta ou quinta vez que ele lhe contava a mesma histria.
	E agora eu resolvi que vou ser lixeiro.
	E mesmo?
	 mesmo. Vi um caminho muito bonito ir pegar o lixo l da escola.
	Quer dizer, ento, que desistiu de ser piloto?
	Desisti.  Simon pensou um pouco e continuou:  Acho que desisti. Mas eu posso ser lixeiro e piloto, no posso?
	Eu acho que pode. Voc vai poder ser o que bem entender, meu amor. Agora, durma. Amanh voc tem aula de novo.
	Drake no vem se despedir de mim?
	Ele est ocupado l no escritrio.
	Mas eu quero que ele venha me dizer boa-noite.
	Certo. Eu vou cham-lo.
Olvia desceu a escada e, em frente  porta fechada do escritrio, hesitou um pouco. Mas decidiu bater.
	Entre.
Devagar, ela abriu a porta.
	Ah,  voc...  ele comentou meio distrado.
	Simon quer que voc suba para lhe desejar boa-noite.
	Ele quer que eu v at l?
	Quer, sim. Ele precisa muito de uma figura masculina, precisa de um pai. E, felizmente, o escolheu.
	Isso  uma grande responsabilidade.
	Eu sei.
	Mas  uma responsabilidade que estou disposto a assumir.  Ele se levantou.  Vou at l em cima lhe dizer boa-noite.
	Agora ele resolveu que vai ser lixeiro.
	Isso  muito bom. Precisamos de bons profissionais em todas as reas. Mas por que ele resolveu que vai ser lixeiro?
	Parece que viu um belo caminho de lixo e ficou todo entusiasmado.
	Bem, vou at l. Depois quero assistir a um documentrio muito bom que vai passar na televiso. Se quiser, pode assisti-lo comigo.
	Certo.
Depois que Drake saiu do escritrio, Olvia se dirigiu  sala onde ficava a televiso.
E foi muito bom permanecer ao lado dele enquanto, atento, Drake assitia ao documentrio. Mas Olvia acabou adormecendo. Quando acordou, Drake j havia desligado a televiso e a fitava intensamente.
	Voc fica muito linda quando dorme, muito linda mesmo.  Ele, de repente, beijou-lhe os lbios de leve.
Surpresa por ter acordado ali naquela sala, ao lado do homem que amava e por causa do beijo, Olvia se sentiu totalmente inadequada, sem saber o que fazer.
	Me beije, Olvia.  Ele aproximou os lbios dos dela e Olvia no conseguiu resistir. O desejo era muito maior do que o medo, muito mais intenso do que o passado. E ela correspondeu ao beijo com extrema paixo.
Mas, de repente, a imagem da me lhe assomou a mente por inteiro. E no pde mais continuar com aquela loucura.
	Pare, Drake.  Ela se afastou.
	Por qu? Por que quer que eu pare?
	No posso continuar com isso.
	Mas ns casamos e nos comprometemos a ter um casamento de verdade.
	Eu sei, mas no posso mesmo continuar com isso.
Ento, saia j daqui!  ele disse com muita raiva.
S ento, Olvia viu que a porta da sala onde se encontravam estava fechada.
Ela abriu a porta e, quando ela estava para deixar a sala, Philips se aproximou muito tenso.
	O que aconteceu?  Drake quis saber.
	Ele est l fora.
	Quem?  Olvia perguntou, mas j sabia qual seria a resposta.
	Brian Harley. E veio acompanhado por uma bab.
	Meu Deus!  Olvia exclamou, assustada.
	Traga-o at aqui e pea para a moa ficar no hall. Depois volte para l e no tire o olho dela.
	Certo.  Phillips se afastou.
Instantes mais tarde, aparentando muita tranquilidade, Brian Harley entrava na sala. Furiosa, Olvia se negava a olhar para o padrasto.
	O que voc quer?  Drake preguntou sem o menor prembulo.
	Vim por causa do meu filho.
	Ele no  seu filho  Olvia disse rapidamente.  Ele  filho de Drake! E voc sabe muito bem disso.
	Quer dizer, ento, que no contou a ela?  Brian se dirigiu a Drake.  Vamos, Arundell! Conte a ela o resultado do teste de DNA!
Olvia no tinha a menor ideia do que estava acontecendo naquela sala.
	Se no contar, eu conto!  Brian ameaou.
	Drake, pelo amor de Deus, o que est me escondendo?
Bem, eu...  Pela primeira vez na vida Olvia via Drake totalmente derrotado.
	Ele mentiu: o garoto no  filho dele!  Brian disse com uma imensa satisfao.  Drake Arundell  um impostor, um grande mentiroso! O exame de DNA provou que ele no tem nenhum grau de parentesco com Simon!
	Drake,  verdade o que esse homem acabou de falar?
Ele deu um profundo suspiro e respondeu:
	 verdade, sim.
	Mas por que voc mentiu para mim?
	Vingana.  Brian esbravejou.  Ele mentiu para voc por vingana, sua idiota! Tudo o que ele fez na vida foi arrumar um jeito para se vingar de mim. Mas se Elizabeth tivesse me dito que ele no era o pai do garoto, eu no teria...
	Me roubado? Era isso o que ia dizer?  Drake com pletou-lhe a frase.
	Eu tive motivo para fazer o que fiz.
	Que motivo foi esse?  Drake perguntou aos gritos.
	Voc j se esqueceu do que eu fiz para voc, garoto? Fui eu quem dissuadiu o seu pai de mand-lo para a universidade. Est lembrado? Voc um dia me disse que o queria realmente na vida era ser piloto. E o que eu fiz? Lutei com unhas e dentes para que pudesse chegar aonde chegou!
	E eu, como um imbecil, mandava tudo o que ganhava para voc aplicar. E voc, sistematicamente, com muito cui
dado, mas de uma maneira muito esperta, desviava tudo o que eu lhe mandava.
	Isso foi porque ela sempre mentiu para mim. Voc tem que entender o que estava acontecendo comigo. Me sentia apunhalado pelas costas. Para mim, voc dormia com a minha mulher h muitos anos.
	Mas eu nunca dormi com ela. Nunca!  Drake, balanou a cabea de um lado para o outro.  Mas me diga: como foi, Brian, que ficou sabendo que Elizabeth estava mentindo?
	Lembra quando voc descobriu que eu estava sumindo com o seu dinheiro e foi me procurar?
	E acha que posso me esquecer de uma coisa dessa?
	Pois ento, quando eu lhe disse que tinha sumido com o seu dinheiro por me trair com a minha mulher, voc ficou absurdamente chocado. E naquele momento fiquei sabendo que Elizabeth tinha mentido para mim o tempo todo!  Brian olhou para Olvia.  Viu s? Viu s porque ele se casou com voc? Foi apenas por vingana! Esse homem jamais se preocupou com o garoto!
	Saia daqui!  Drake disse, agora com muita calma.
	No, antes de sair quero lhe fazer uma proposta: voc me devolve o garoto e eu desisto de ir  polcia acusar Olvia por rapto.
	No vou lhe devolver o meu irmo, ouviu bem?  Olvia gritou.  E se for  polcia me acusar, conto a eles tudo o que sei sobre a morte da minha me!
Brian a fitou com os olhos muito arregalados e perguntou:
	Mas o que  isso? Sobre o que voc est falando?
	Eu sei que voc a matou.
	Voc enlouqueceu!  ele respondeu prontamente.  S pode ter enlouquecido. E isso  muito melhor para mim! Nenhum juiz vai querer dar a guarda de uma criana para uma maluca; especialmente se ela estiver presa por rapto!
 Olhando para Drake, Brian perguntou.  Como ? Vamos, ou no, entrar num acordo? Cuidarei do garoto muito melhor do que essa maluca fez at agora. E se o garoto me for devolvido, ela evitar as grades.
	No, no vai existir acordo algum.  A voz de Drake tinha agora uma frieza muito grande.
	Bem, a deciso foi de vocs. Vou embora, mas breve ouviro falar de mim outra vez. E voc, mocinha, no tem o menor direito sobre ele.
Com um sorriso nos lbios, Brian foi embora.
Olvia ficou esperando at ouvir o barulho da porta da frente se fechando. Em seguida, sem dizer nada, fez meno de sair da sala.
	Para onde voc est indo?  Drake perguntou.
	Para o meu quarto.
	Vai subir sem antes conversar comigo?
	Vou. No tenho mais nada para conversar com voc.
J conseguiu a sua vingana, sr. Drake Arundell. No vou ficar aqui para comemor-la com o senhor.
Drake a segurou pelo brao.
	Olha aqui: no pense, nem por um segundo, em me abandonar. Seus dias de fuga acabaram. Ns somos casados e vamos continuar casados.
	Mesmo sabendo que eu no confio mais em voc?
	Pelo que eu saiba, voc nunca confiou em mim. J se esqueceu de que fez eu assinar um recibo por causa daquele porta-retrato? Felizmente, confiana no  l muito importante quando se tem issol  Ele, ento, a beijou com sofreguido, com desespero.  No adianta lutar, Olvia, voc me pertence de corpo e alma. Jamais vai poder fugir de mim! E eu tambm jamais poderei fugir de voc!
Drake a soltou. Olvia, ento, lhe deu as costas e foi para o quarto.
Em frente ao espelho, ela viu uma figura de mulher plida, abatida, desesperanada e profundamente confusa.
Desejo no era motivo para que um casamento fosse realizado. No conseguia acreditar que, por causa de um sentimento chamado desejo, Drake havia decidido se casar. No ele que era um homem controlado, que sabia o que queria da vida e dava a maior importncia  liberdade.
Vingana! Aquele casamento s podia ter sido mesmo realizado por vingana.
Olvia, que at aquele momento no havia derramado uma s lgrima, comeou a chorar. Devagar, ela abriu a gaveta do criado-mudo e, olhando para o teto, enfiou a mo para pegar um leno. De repente, sentiu que pegava um papel. Era o recibo que ele havia lhe dado. O recibo: smbolo de sua falta de confiana.
Em pensamento, ela conversou com a mulher do pequeno porta-retrato: "Pois muito bem: foi voc quem orquestrou tudo isso. Agora, por favor, me diga o que devo fazer."
Porm, a imagem vvida da mulher que estava em sua mente, nada lhe respondeu.
Olvia, ento, pegou um leno, enxugou as lgrimas e foi tomar um banho.
De volta ao quarto, ela percebeu que no conseguiria dormir. Sentou-se na beirada da cama e segurou a cabea com as mos.
"Quem, afinal,  o pai de Simon? Ele  muito parecido com a minha me e, pelos traos fsicos, jamais irei saber de quem se trata. Mas s pode ter sido algum homem que, naquele vero, esteve muito prximo a ela. Mas quem?"
Desesperada, Olvia tentou relembrar as pessoas que frequentavam a sua casa naquela poca. Tentou relembrar das festividades que haviam tido na pequena cidade onde morara. Na poca, Elizabeth e Brian tinham um crculo muito grande de amizades.
"S pode ter sido algum que morava l em Spring Fiat. E minha me mentiu. E, se mentiu, foi porque Brian podia prejudicar o amante dela. Ento, s pode ter sido mesmo algum conhecido, que ela precisava proteger!"
Olvia deu um profundo suspiro e perguntou baixinho:
 Quem?

CAPITULO IX

Depois de uma noite terrivelmente maldor-mida, uma noite cheia de medos e inseguranas, Olvia acordou chorando e com uma terrvel dor de cabea. Uma leve batida na porta fez com ela se sentasse assustada na cama.
	Quem est a?  ela perguntou.
Em resposta, a porta se abriu e Drake entrou.
	Levante-se. Seu padrasto est l embaixo com um advogado.
	O qu?
	Foi exatamente isso que voc ouviu: Brian est l embaixo com o advogado. E no adianta ficar me olhando com esses olhos arregalados. Levante-se e v para o meu escritrio o mais depressa possvel.
Assim que Drake saiu do quarto, Olvia se levantou. Meio atarantada, ela foi para o banheiro.
"E agora? O que vai acontecer? Ser que eles vo levar o Simon? No, isso no pode acontecer! Seria injusto demais. No, meu irmo no sai daqui! Simon precisa de mim. E eu preciso muito dele!", ela pensava enquanto escovava os dentes. "Mas tudo pode acontecer. Brian, pelo jeito no est para brincadeiras. S no entendo o motivo que o faz querer tanto ficar com Simon. Ele nunca gostou do meu irmo, sempre o tratou muito mal."
Olvia penteou os cabelos, colocou um dos vestido que havia feito e correu escada abaixo.
	Onde est o meu irmo?  Olvia perguntou assim que entrou no escritrio.
	O garoto est sendo acordado pelo Phillips. E o advogado de Brian est na sala de televiso.
Olvia, ento, no fazendo questo de esconder a raiva que sentia, virou-se para o padrasto e perguntou:
	O que voc quer, hem? Me diga: o que voc quer?
	Voc sabe o que eu quero  Brian ironizou.
	Voc nunca gostou de Brian.
	E verdade, seria um grande hipcrita se negasse isso.
	Voc  um grande hipcrita. E, alm de hipcrita, voc  um ser abjeto!
	Como voc mudou, Olvia. Nem uma ona reagiria desta maneira. Mas podemos resolver tudo de uma maneira muito fcil, ou de uma maneira bastante complicada. A escolha no  minha.
	O que voc quer?  ela tornou a perguntar.
	Ontem  noite, deixei muito claro o que quero. E se no fizerem o que quero, voc, mocinha, alm de perder o seu irmozinho, vai permanecer um bom tempo atrs das grades.
	No necessariamente.  Drake, que at aquele momento assistira  discusso calado, disse com extrema frieza.  Tenho certeza de que a polcia vai querer saber direitinho a razo que no o levou a registrar o desaparecimento do garoto h cinco anos. E a polcia tambm vai ficar muito interessada no fato de o garoto ser neto e nico herdeiro de Simon Brentshaw, que lhe deixou uma fortuna incalculvel ao morrer.
Pela primeira vez, Olvia viu que algo havia atingido Brian Harley. Mesmo assim, perguntou em voz muito alta:
	Que histria  essa? Todo mundo sabe que meu av vivia obcecado com a ideia de que uma criana rica acaba se transformando num marginal. E ele deixou toda a fortuna que tinha para obras de caridade. Todo mundo sabe disso.
Pois ele mudou de ideia antes de morrer.  Drake afirmou.  Em segredo, deixou uma fortuna incalculvel para Simon e uma quantia menor, mas considervel, muito grande tambm, para voc e para a sua me. E voc sabia disso, Brian. Sabia porque era voc quem administrava os bens dele. Foi pensando nesse dinheiro, principalmente no dinheiro de Olvia e Elizabeth, dinheiro que voc tambm podia roubar, como roubou o meu, que se mudou para a Austrlia e no fez o menor esforo para encontrar a sua enteada e o garoto. E tambm no fez a menor questo de registrar o desaparecimento dos dois. A, longe de tudo e de todos, resolveu colocar a mo naquele dinheiro todo e faz-lo se multiplicar. S que investiu mal e os credores, hoje, esto querendo v-lo atrs das grades.
"Meu Deus, por que Drake no me disse isso tudo ontem  noite?", Olvia se perguntou em pensamento. E a resposta foruma s: "Drake no me disse isso tudo porque estava com muita raiva de mim..."
	Voc no pode provar absolutamente nada do que acabou de dizer.
	Posso, posso, sim. E voc est precisando de muito dinheiro agora. E por isso que est to interessado em Simon. Se o garoto estiver morando com voc, vai poder mexer no dinheiro dele tambm. Se no conseguir isso, o imprio que montou l na Austrlia ir desmoronar e voc vai para a priso por longos e longos anos. O que voc acha que a polcia, ou mesmo um juiz, vai fazer quando ficar sabendo de tudo isso? E o que me diz da morte de Elizabeth?
	No tenho nada a ver com a morte dela.
	Ser que no tem mesmo? Vamos, Olvia, diga a ele!
Mas Olvia no teve a oportunidade de pronunciar uma palavra sequer. Brian, muito descontrolado, disse:
	Tudo bem, tudo bem... Fui at o quarto dela e a agredi. Mas a minha agresso no foi suficiente para mat-la.
	S para deix-la meio tonta, no foi?  Drake ironizou.  A, ela caiu e machucou a cabea.
	No enquanto eu estivesse com ela. Eu no a matei. Isso eu juro!
Olvia sem saber o porqu, tinha certeza de que o padrasto no estava mentindo.
	E estou muito, muito chateado com voc Olvia. Ser que pensou que eu poderia ferir, ou mesmo matar Simon?
"Apesar de ser um ladro, um homem sem o menor escrpulo, Brian no  um assassino.", ela concluiu em pensamento.
	Existem mil maneiras de se ferir uma criana  Olvia disse baixinho.  Tir-lo, por exemplo, da nica pessoa que ele conhece como me  uma delas.
	Eu tenho que conseguir muito dinheiro  Brian disse com desespero.  E voc tem que entender isso. Voc deve isso a mim, Olvia. Afinal, dei a voc educao, casa e comida durante quinze anos.
	Na minha opinio, o dinheiro que voc roubou dela paga bem mais do que gastou em quinze anos  Drake afirmou.
 Mesmo assim, se deixar o garoto com Olvia, eu limpo o seu nome na Austrlia e lhe forneo um renda anual.
	Quanto?  Brian perguntou, sem pestanejar.
Drake, ento, lhe disse a soma que estava disposto a lhe dar anualmente.
	Isso s pode ser uma piada!  Brian riu com descaso.
	Mas  isso que tenho para lhe oferecer.
	Ser que se esqueceu do garoto? Se eu for em frente com a minha ao...
	Se for em frente, sr. Harley,  o senhor quem vai parar na cadeia!  Drake ameaou.
	Bem, vou ter que pensar sobre esse assunto. No  uma deciso para ser tomada assim...
	Drake, o que aconteceu? Ser que ficou maluco? Como pode oferecer tanto dinheiro assim a ele?
	Querida, por favor, deixe que eu cuido dos negcios.
A maneira que Drake se dirigiu a ela a deixou totalmente sem ao.
	Estou esperando, Harley!  Drake no estava para brincadeiras.  Tem dois minutos para me dizer o que decidiu.
Uma hora e meia mais tarde, o advogado de Drake, com todos os papis assinados por Brian deixava a manso.
	Por que voc fez isso? Por que resolveu tambm ficar com a custdia do meu irmo?
	Por vingana  ele ironizou.  E para poder administrar a fortuna que pertence a Simon.
"Agora tenho certeza de que Drake vai querer me punir pela minha falta de confiana..."
	Drake, quero que me perdoe.
	E mesmo? Ser que tenho algo a lhe perdoar?  ele continuava ironizando.
	Tem, sim. Ontem  noite fui muito injusta com voc.
Ele abriu uma gaveta da escrivaninha, pegou o pequeno porta-retrato oval e o colocou sobre a mesa.
	Naquela ltima vez que fui ao seu apartamento, tinha ido avis-la de que o exame de DNA provava que eu no era o pai de Simon. A, Simon apareceu com essa figura linda de mulher.
	No estou entendendo...
	Meu pai comprou esse lindo e raro objeto no dia em que conheceu a minha me. E dava muito importncia a essa preciosidade. Costumava dizer que essa jovem mulher tinha a cor dos olhos dele. E, por causa disso, afirmava que ela era algum que h muito tempo havia pertencido a sua famlia.
	Continuo sem entender aonde voc quer chegar, Drake.
Ele deu um profundo suspiro e continuou:
	Eu no sou filho verdadeiro dos meus pais. Fui adotado por eles. Minha me no podia ter filhos. Uma vez minha me me contou que isso quase acabou com o casamento dos dois, tamanha a decepo do meu pai quando ficou sabendo do fato.
	Me desculpe, Drake, mas est tudo muito confuso. O que est tentando me dizer?
	Foi por isso que o exame de DNA no me relacionou a Simon. E, com toda certeza, foi meu pai quem deu esse pequeno porta-retrato para a sua me. Ele deve ter ficado sabendo da gravidez e lhe presenteou com o que tinha de maior valor. No queria que o filho de Elizabeth ficasse desamparado, porque tambm era filho dele.
Aquela revelao foi demais para Olvia. Chocada, ela comeou a chorar.
	Calma, querida, muita calma  Drake pediu e sentou-se ao lado dela.
	Mas minha me disse ao meu padrasto que o pai era voc.
Pense bem no que estava acontecendo na poca: minha me lutava desesperadamente contra um cncer e, nesses casos, o estado emocional do doente  muito importante. O que aconteceria se Elizabeth revelasse que estava dormindo com o meu pai? O que aconteceria com a minha me ao saber que, alm de estar sendo trada pelo marido, a amante do meu pai carregava um filho no ventre; um filho que minha me jamais poderia dar a ele? Aps uma pausa, Drake continuou:
	Tenho certeza de que, se a minha me descobrisse a verdade, teria desistido de viver. No fundo, acho que sua me at foi muito generosa: para proteger a minha me, resolveu dizer que o filho era meu. Eu no estava mais l para me defender. Elizabeth s no sabia que eu estava mandando dinheiro para Brian investir para mim.
	Mas isso que a minha me fez no foi justo com voc.
	Ela, na certa, estava desesperada. E falou o primeiro nome que lhe veio  cabea. A, seis meses depois do nascimento do Simon, o meu pai morreu num acidente e ela se viu, de repente com um recm-nascido, um marido que a agredia e uma filha que, por mais que quisesse, no tinha a menor condio de ajud-la.
	E voc acha que o meu padrasto sabe disso?
	De maneira nenhuma.
	Por que no me contou logo toda a verdade, Drake?
	Eu no podia. Temia que contasse tudo para a minha me.
	Jamais faria isso.
	No podia me arriscar, Olvia. Afinal, voc j tinha tentado me chantagear.
	Mas voc me disse que sua me vive no Canad. Como eu iria procur-la?
	No disse que minha me vive no Canad. Ela apenas est l a passeio. Minha me chega daqui a trs dias e mora bem perto daqui.
Os dois continuaram a conversar. Em um dado momento, ela quis saber:
	E como ficou sabendo de todas as falcatruas do meu padrasto?
	Contratei um investigador particular e ele descobriu tudo. A primeira coisa que esse investigador descobriu foi o que Brian disse s pessoas de Spring Fiat.
E o que foi que Brian disse a elas?
	Bem, ele fez questo de dizer a todos que voc, devido a sua consternao pela morte de Elizabeth, tinha decidido passar um tempo com amigos aqui em Auckland, enquanto ele organizava os negcios e vendia a casa. A, logo que pde, foi embora para a Austrlia.
	Hoje eu vou chegar atrasado na escola, Olvia. Voc se esqueceu de me chamar. Se no fosse Phillips...  o garoto deu um beijo no rosto da irm e outro no rosto de Drake.
	Me desculpe, meu amor.
	J estou indo.  Phillips quem vai me levar hoje.
	Boa aula, meu amor!  Olvia disse com lgrimas nos olhos.
Quando o garoto se afastou, Drake segurou o rosto de Olvia e disse, simplesmente:
	Eu te amo. Ser... ser que um dia voc vai conseguir me amar tambm?
	Eu sempre te amei, Drake. Sempre...
	 verdade isso que est me dizendo?
	Mas  claro que sim.
	Olvia, de hoje em diante, jamais esconderei nada de voc. Acredita no que estou falando?
	Mas  claro que eu acredito. Voc  um homem maravilhoso, Drake. No sei como pude desconfiar tanto de voc.
	Voc tambm  uma mulher maravilhosa. Sua dedicao ao Simon chega a ser comovente.
	Eu adoro aquele garoto.
	E acha que no sei disso?  Ele a beijou com extremo carinho, com extrema afeio. Inebriada, Olvia correspondeu ao beijo.
	Venha...  Ele se levantou e a puxou pela mo.
	Para onde voc est me levando?
	Para o meu quarto, que agora ser nosso.
	Mas voc tem que trabalhar, Drake.
	No, Olvia. Hoje no  dia de trabalho. Hoje  dia de amor, muito amor. Hoje  o dia mais feliz da minha vida.
Mais tarde, naquela mesma manh, Olvia acordou de um sono muito pesado e restaurador.
	Voc fica linda dormindo, sra. Arundell.  Drake lhe beijou a testa.
	Parece que j ouvi essas palavras antes...
	Voc foi maravilhosa. Foi muito bom fazer amor com voc, minha querida.
	Eu tambm adorei fazer amor com voc, Drake. Ela sorriu e olhou para o teto.
	O que foi?  ele quis saber.  Ser que disse algo errado?
	No, voc no disse nada errado. S estava pensando no sonho que tive.
	Sonho?  Ele se apoiou em um dos cotovelos e a fitou intensamente.  Que sonho?
	Sonhei com a mulher do porta-retrato.
	 mesmo? E o que ela lhe disse?
	Nada, apenas me recitou uma poesia.
	E voc se lembra da poesia?
	Mais ou menos...
	Ento tente diz-la para mim.
	Espere um pouquinho, deixa eu tentar me lembrar.  Olvia deu um profundo suspiro.   mais ou menos assim:
Encontrei o meu amor
e voc encontrou o seu.
Meu retrato  encantado
e levou o Amor para o seu lado.
E agora, que tens o Amor ao seu lado, e o corao apaziguado, passe o meu retrato adiante, e esse Amor ser abenoado.
	Estranho isso, no?  Drake perguntou, pensativo.
	... Muito estranho... S uma pessoa bem jovem escreveria alguma coisa desse tipo.
	Mas ela foi retratada bem jovem.
	Adoraria saber quem  essa mulher.
	Eu tambm. Ser que seu pai tambm sonhou com ela e por isso deu o porta-retrato para a minha me?
	No pensei que fosse supersticiosa, querida.
	Mas eu nunca fui supersticiosa. Mas essa mulher me causa uma sensao muito forte. Na primeira vez que sonhei com ela...
	Continue  Drake pediu.
	Bem, ela pedia para eu escrever para voc. Acho que se no fosse o sonho, eu no teria escrito. E mais, tarde, quando voc ia me contar sobre o resultado do exame de DNA, Simon apareceu com ela nas mos. Se Simon no tivesse aparecido com ela, voc iria me contar que no era o pai de Simon, no ia?
	E... Eu acho que sim.
	Ento...
	Mas, de fato, eu j a queria muito. S achava que no estava preparada para aceitar o meu amor. Mesmo assim, esse retrato me ajudou muito a me decidir naquele dia.
	Tudo pode ter sido uma grande coincidncia... Mesmo assim no gostaria de arriscar.
	Sobre o qu voc est falando?
	Lembra-se das duas ltimas frases que ela me disse no sonho: passe o meu retrato adiante e esse Amor ser abenoado. Se eu no pass-la para frente, tenho medo de que o nosso amor no seja abenoado. Seu pai a manteve com ele e no foi feliz com a sua me.
	Querida, acredita mesmo que a nossa felicidade vai depender de se livrar ou no daquele pequeno porta-retrato?
 No, mas mesmo assim acho que devemos dar a ela a chance de fazer com outras pessoas, exatamente o que fez conosco: tornar dois inimigos em amantes.
	Voc me convenceu: pode se livrar do porta-retrato. Agora me beije.
	E para j.  Olvia o beijou longa e apaixonadamente.
	Olvia?  Ele interrompeu o beijo.  J pensou emcomo vai se livrar do porta-retrato?
	No, mas a gente pode deix-lo em qualquer lugar para que algum o encontre.
	Voc sabe o quanto custa uma pea como aquela? J lhe disse que  muito cara, no disse?
No estou dando a menor importncia para o valor material que ela tem. S quero que faa mais pessoas felizes.
 Olvia deu de ombros.  Mas no vou pensar nisso agora. Tenho certeza de que aquela linda mulher nos indicar o caminho certo.
 Eu tambm tenho. Agora vou continuar o que interrompi h pouco.
Drake voltou a beij-la e Olvia se sentiu plena. E tinha certeza de que, jamais, espelho algum a refletiria de novo como uma mulher plida, abatida, desesperanada e profundamente cansada. Olvia sabia que havia renascido, renascido para a vida. E tal renascimento se devia quela mulher desconhecida que, vinda de pocas antigas, entrara em sua vida para faz-la encontrar a verdadeira felicidade.

FIM









